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Paulo Genestreti: “Contemplação”

Paulo 03Vez por outra sou envolvido pelo estado catatônico, estado em que apenas sinto vontade do nada, do afastamento da realidade palpável, me embrenhando na verdade íntima. Esta verdade me desloca a tempos de uma viagem no tempo sem os aparatos tecnológicos. Uma mesa de esquina, de madeira de preferência, bem surrada, para que os movimentos e a amplitude potencializem. Um líquido na goela, pode ser a cervejinha corriqueira, na ampola de vidro. O copo americano dividindo-se em duas cores. Após o primeiro gole, deixar o jogo de imagens se espalhar pelo tabuleiro da rua em cruz. Faço muito isto. Mas o que mais me anestesia é o caminhar sem rumo em estrada poeirenta. Daquelas nos fundões de uma Minas montanhosa. Em dia de sol arrebentando claras e gemas, em que os passos são contados em um, dois, três, quatro, ah, deixa prá lá, serão muitos. Mochila nas costas, cantil pendurado e chapéu segurando a cabeça. Vez por outra, o estado do nada me faz sentar na beira do ir e vir em que ninguém aparece. De longe, ao bebericar a água fresca na goela, um zumbido que insiste em não aumentar. Vem ou vai? Vem. Mas devagar, lento, como o pernilongo das noites quentes. E vem, preguiçoso. Agora é visual. É uma pontinha de poeira, lá no milímetro distante. Vem. Virá, não sei quando. Vem chegando, aumentando. O pernilongo vira guepardo, que vira tigresa, que vira leão. Joga pó, joga a cortina na paisagem do mato seco. Segue indo. Foi. Virou pernilongo, muriçoca. Levanto e vou. Agora eu, mochilento, olhando o nada, a paisagem estática. Mas contando um, dois, três, quatro, ah, deixa pra lá: o que foi um não será mais. Uma casinha. Uma casa. Uma casa grande. Outra. Outra aculá. Uma vila inteira. Onde tem vila, tem bar. E lá vem ele, puxado, chegando devagar perto de mim. A mesa de madeira chegou, a cadeira também. Uma cerva gelada na mão do cotovelo que largou o balcão. O primeiro gole desce e não penso em nada. Preciso de uma frase: a felicidade está no tempo de contemplar um tempo.

Paulo Genestreti é professor universitário, publicitário e mestre em comunicação e semiótica

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