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Paulo Genestreti: “O Pinocchio e a alma”

Paulo 03“— C’era una volta… — Unre! — dirannosubito i miei piccolilettori. — No, ragazzi, avetesbagliato. C’era una volta unpezzodilegno.” Começava assim o livro de capa avermelhada brilhante. Seguramente era o primeiro que diria, com muito orgulho, meu livro. Escrito em italiano, ganhara o exemplar das mãos de meu avô, que acabara de voltar de uma viagem à sua terra natal. Ilustrado ricamente, e por ainda não ser capaz da leitura, folheava suas páginas em busca das imagens do boneco de madeira, do velho Geppetto e das figuras que povoavam as páginas da edição italiana de Firenze que ainda trazia as originais ilustrações de Mazzanti, de 1883. Pinocchio me fascinava por ser o boneco que falava. Isto não era estranho para mim, pois, como para muitas crianças, a capacidade em dar voz aos nossos brinquedos inanimados era uma constante. Meus brinquedos ganhavam vida própria, com os carros e caminhões sendo dirigidos por minha figura deslocada para dentro deles. Independente disto, meus olhos se emocionavam quando, em sua parte final, Pinocchio, heroicamente, salvava Geppetto da baleia e se afogava no mar alto. O fato de ganhar uma alma e se transformar em uma criança, tendo a segunda chance em carne e osso, fazia com que me detivesse por mais tempo na ilustração, na busca dos parafusos que ligavam suas juntas e seus membros. De alguma forma, a passagem de brinquedo para menino era a perda da magia de minha interpretação infantil. E esta por lá ficou em muitos anos. Me pego, há pouco tempo, dando uma busca em minha biblioteca. Escondido nas fileiras de trás novamente encontro o exemplar em questão, um tanto rasgado pela ação do tempo. Ao folheá-lo, com a nostalgia de mais de cinco décadas passadas, me detenho na página que contém a ilustração citada. Lá, emoldurando o desenho do menino transformado, o velho encontra o vestígio de um menino leitor, na forma das marcas dos dedos ainda sujos de terra, curioso pela transformação que acontecera. E que aconteceu.

Paulo Genestreti é professor universitário, publicitário e mestre em comunicação e semiótica

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