Home / Opinião / A ‘chuca’ dos heterotops (parte I)

A ‘chuca’ dos heterotops (parte I)

– Alô, Henrique?

– Depende?

– Pô, como assim? É ou não é o número do Henrique Vitarelli de Maistre?

– Se for para cobrança de dívidas, não, não é não.

– Ah, pare de ser besta, sabia que era você, Henrique.

– E mesmo assim perguntou, não foi E D?

– Só por formalidade.

– Sei, diga lá.

– Cara, você está com tempo?

– Sim, estou curtindo meu desemprego criativo.

– Não sabia que você estava sem trabalho.

– Não, não, estou sem emprego, mas não sem trabalho.

– Ué, eu não entendi – ele disse.

– Estou sem carteira assinada, mas trabalhando como nunca!

–Em que você está trabalhando?

–Com escrita, sou escritor – eu respondi e me senti um pouquinho triunfante comigo mesmo.

– E isso lá é trabalho, Henrique?

– Claro.

– Está mais para vagabundagem – E D ironizou.

– E você acha que ser vagabundo é fácil?

– Ah, deixa de falar besteiras.

–Tudo bem, diga E D, o que está havendo?

–Então, Vitarelli, sei lá, bom… bem… é que… Eu preciso trocar ideias…

– Ah, sim, desabafar?

– Você tá louco? Desabafar é coisa de frouxo, não é isso não, é…

O E D, meu amigo de longas datas, é um verdadeiro representante dos machões de plantão. Eu já estou acostumado com o jeito dele. O cara é chegado em postar fotos nas redes sociais levantando peso na academia e exibindo os suplementos alimentares que vive comprando; adora motos e carros esportivos; vive falando que o mundo está muito frouxo, cheio de mimimi e politicamente correto; adora fazer selfies usando óculos de sol e camiseta regata, inclusive em noites frias; força a barra pra mostrar que é o macho Alfa de sua família; e acredita ser um dos últimos defensores do que ele – e alguns coleguinhas com quem anda – diz ser o Orgulho Hetero.

Certa vez eu quis explicar para o E D que não era por ai. Eu comentei que tudo bem ele só falar de artes marciais, carros turbinados, armas de fogo, cerveja artesanal, churrasco e halterofilismo, tudo bem mesmo, mas que não dava pra ficar fazendo pose de invulnerável, de ser humano que não tem fraquezas e pontos frágeis. Também tentei explicar pra ele como tudo isso não passa de uma masculinidade estereotipada e tóxica que afeta o homem contemporâneo e o torna um brucutu ressentido.

E D ficou puto comigo, me xingou de boiola, de frescurento da mamãe, de sensivelzinho, de artista gayzista e comunista, de frutinha esquerdista e de um monte de outras coisas que não importa eu dizer aqui. Naquela época E D parecia estar numa crise de meia-idade, havia feito 38 anos e, como nunca, estava investindo nas injeções de anabolizantes (A gente o apelidou de Peneirinha, mas ninguém era louco de lançar essa palavra quando ele estava por perto). Eu desisti de explicar o óbvio e não nos falamos por um bom tempo. Mas no fim de tarde da última sexta-feira ele me ligou, havia tomado a inciativa do diálogo e tinha uma voz preocupada:

– Eu tô cismado.

– Mas, cara, o que houve?

– Se você contar pra alguém, Vitarelli, eu sou capaz de moer sua fuça folgada no soco.

– Calma, cara, se acalme, o que eu iria contar pra alguém?

– Não se finja de tonto.

– Difícil – eu disse.

– Eu tô muito cismado mesmo…

– Mas você vai me contar?

– Por celular não dá.

– Tudo bem, eu entendo, mas não sou vidente e nem telepata.

– Você vai tirar sarro de mim, não é mesmo, seu xarope?

– Claro que não, sou xarope mais não sou doido.

– Acho que é doido sim!

– Cara, o seu bíceps é maior do que minha barriga de Chopp.

– É mesmo! – ele disse.

– Então, me diga, o que está rolando?

– Não sei, eu tô cismado pra caramba, muito cismado, você não tem ideia…

– Que é isso, se abra, desabafe e…

– Eu já falei que desabafar é coisa de fresco, tá querendo levar bordoada, é?

– Não, não, já apanho demais dos boletos que não pago.

Eu sempre lidei bem com a agressividade do E D, ele fazia a linha de monstrão marombado, mas sempre foi boa pessoa. Resolvi parar de usar a palavra desabafar e passei a dizer trocar experiência de vida (o que é a mesma coisa, mas não afetava a super-ultra-power masculinidade (frágil) dele). Eu sou irônico, mas não ao ponto de levar surra do meu amigo que transpira Whey Protein vinte e quatro horas por dia. Ele continuava:

– Tô saindo daqui da Vila Arens, e acho que em quinze minutos estarei aí de carro, vamos dar uma volta, certo?

– Nossa, vou ganhar carona e um encontro, ahahah – eu respondi com ar de galhofa.

– Cala a boca, você tá maluco, é? Cara, não brinca comigo!

– Parei. Tudo bem, tudo bem, eu aguardo você para trocarmos experiência de vida.

– Acho bom mesmo, até já!

Ele atrasou um pouco, mas logo chegou engravatado dentro de um carro que eu desconhecia a marca, o modelo o ano e a quantidade de litros de combustível gastos por minuto ou quilômetro. E D era pura seriedade, saímos do centro e fomos até o Jardim Ermida, um dos bairros de Jundiahy que aos poucos foi se tornando chique e hoje está repleto de nouveaux riches triunfantes que desfilam seus cachorrinhos pelas calçadas no fim de tarde.

Estacionamos em uma garagem ampla, mas que já estava repleta de automóveis que eu só havia visto em videogame. Era uma espécie de salão de festas ou clube de campo, muito meritocrático – tão meritocrático quanto fruto de heranças.

Meu amigo estava sério, transpirava um pouco nas têmporas, mas fazia absoluto sigilo sobre os problemas que provavelmente o atormentavam. Com voz empostada ele virou pra mim e disse:

– Esta é uma reunião muito séria, não faça gracinhas!

– Tudo bem.

– Tudo que acontece aqui, Henrique, ficará aqui, entendido?

– Absolutamente.

– Se você espalhar essa história vai ficar ruim para o seu lado. – ele disse e exibiu o punho fechado. Que amistoso.

– E D, até parece que você não me conhece.

– Sei, sei.

Entramos.

O hall parecia uma cena luxuosa do filme Titanic. Só havia marmanjo, todos exímios levantadores de peso que usavam terno – eles pareciam ter copiado o figurino e a pose do Deputado Federal Alexandre Frota.

Eu, com a minha barba-por-fazer-desde-meses-atrás, os cabelos despenteados num corte à altura das costas e trajando uma bermuda furada e a camiseta velha do Paulista, aquela do título da Copa do Brasil de 2005, semelhava um mendigo que acabava de ser acolhido entre a refinada nobreza de Jundiahy.

Estranhei a ausência de mulheres, aquilo era um Clube do Bolinha Bombado, só faltava os caras se revelarem e dizerem que era o esquenta para uma sauna, ou, pior, uma reunião da Hinode. Fiquei tenso, sobretudo quando o E D me apresentou aos demais.

– Bom – disse um dos marombados – estamos aqui, vamos começar?

– Vamos! – todos responderam, estavam sérios e servis.

– Daremos início à reunião – disse outro brutamonte que usava um relógio e uma fivela que pareciam duas frigideiras acopladas, certeza que era o Agroboy do clubinho – mas, antes de qualquer coisa, vamos exibir o nosso brasão – ele disse.

– Vamos! – todos responderam, continuavam sérios e servis.

– Tragam o nosso amado brasão – disse um terceiro.

–Ahúú, Ahúú, Ahúú – todos urravam e faziam poses de Bodybuilders.

E então, dois dos fortões que estavam ali saíram, mas imediatamente retornaram. Eles estavam com uma espécie de disco ovalado, muito grande e coberto com um manto escuro. Àquela altura eu já imaginava algum ritual satânico ou uma prática estranha em que todo mundo consumiria carreiras de creatina ou albumina.

Os leões de chácara tiraram o manto do disco ovalado e, num movimento de vai-e-vem, mostraram o brasão para todos os presentes, uns vinte, contando comigo. Eles aplaudiam e urravam, eram sons tribais, ou, melhor: a imitação de sons tribais. Todos eles pareciam parte de um time de futebol norte-americano ou rugby, dois esportes que acho um verdadeiro tédio. Então, no momento em que viraram o disco-brasão na minha direção, pude ver o que, em letras garrafais, estava escrito:

CHUCA
Confederação dos Heterotops Unidos: Colegas Anabolizadíssimos

Eu tive que conter o riso, eu tive mesmo que segurar para não gargalhar e tirar um sarro homérico da situação, pois, caso contrário, seria destroçado, apanharia mais do que calouro do Senai. Eles sequer imaginavam o que chuca significava! Os machões não faziam ideia – ou, pelo menos, aparentavam não atinar para isso – do que era fazer a chuca.

Era, sem dúvidas, uma das melhores ironias do destino. E eu presenciava aquilo tudo, meio estarrecido, meio satisfeito. Compreendi que a masculinidade deles não só era extremamente insegura, mas também demasiadamente confusa e um pouco burra.

A ritualística da altiva Confederação dos Heterotops Unidos: Colegas Anabolizadíssimos, o Clubinho Chuca, que sequer imaginava a ironia do termo chuca, começou.

–Ahúú, Ahúú, Ahúú – todos urravam e faziam poses de Bodybuilders.

Falaram de cervejas, supinos e pesos, carros, motocicletas, churrascos, ferramentas, fórmula I, das incríveis cenas do filme Os Mercenários, dos 65.098 carros que aparecem nas 147 sequências do Velozes & Furiosos e todas as coisas que eles consideravam como os pináculos da masculinidade brasileira do século XXI. Xingavam e repudiavam tudo o que eles identificavam como sinônimo de fraqueza e fragilidade. Chegaram ao ponto de dizer que se sentiam oprimidos pelo atual feminismo; sim, eles se sentiam oprimidos!

–Ahúú, Ahúú, Ahúú – todos urravam e faziam poses de Bodybuilders.

Depois das amenidades eles começaram a relatar acontecimentos sobre as próprias vidas, os dilemas, sacrifícios e sofrimentos dos heterotops unidos. Em resumo: puro desabafo de caras inseguros, mas ninguém ousou citara palavra desabafar, ninguém pronunciaria a palavra insegurança.

–Ahúú, Ahúú, Ahúú – todos urravam e faziam poses de Bodybuilders.

Mas o desfecho mais interessante foi quando voltei de carona com o E D. Notei que ele continuava instável. E então ele revelaria o segredo que o inquietava, mas, apenas para aumentar a curiosidade de vocês, eu contarei isso só na próxima semana.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

WP2Social Auto Publish Powered By : XYZScripts.com