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A ‘chuca’ dos heterotops (parte II): o mistério revelado

Depois de encerradas as atividades da Confederação dos Heterotops Unidos: Colegas Anabolizadíssimos, meu amigo E D aparentava uma tranquilidade maior. Quando entramos em seu carro e retornarmos para o centro da cidade eu ainda estava um pouco atônito com a enxurrada de assuntos.

– Os caras são legais – ele disse.

–Sim, parecem muito amigos seus, E D.

–É, mas é osso…

–Cara, o que foi?

–Sei lá, a gente criou a Chuca com o propósito de fortalecer nosso Orgulho Heterotop.

E, novamente, me seguirei para não rir. Ele falava com seriedade. Eles não tinham a menor noção do que a sigla Chuca podia querer dizer em outro contexto que não aquele.

–Mas eu não me sinto bem em falar tudo para os caras.

–Entendo – eu disse.

–Sei lá, é difícil… Não sei…

–Faz o seguinte E D, assim que chegarmos ao meu sobradinho alugado agente toma uma cerveja, relaxe aí, cara, tudo bem?

–Certo, mas…

–Fica tranquilo E D.

Chegamos. Abri a porta e logo fui para a cozinha, saquei duas cervejas geladas e ofereci uma ao meu consternado amigo. Eu percebia que as tensões estavam aparentes.

–Então, vou falar, mas se você me zoar eu estrangulo você.

–Cara, sem violência, beba a cerveja – eu disse.

–Certo, certo, é difícil…

–Cara, sua família está bem?

–Sim.

–Você está sem dinheiro?

–Não.

–Ainda bem – eu disse, só pra descontrair – Pensei que você fosse me pedir um cascalho.

–Não, não é isso.

Era como tentar extrair água de uma rocha. O cara estava preocupadíssimo. O E D não é o tipo de pessoa que se sente tão atormentada assim, com nada que não seja a proporção dos próprios bíceps e tríceps. Se não era família e dinheiro só podia ser um assunto: mulher.

–Então, Vitarelli, eu instalei o Tinder…

–Esse é o problema?

–Claro que não, sua besta!

– Então o que é?

– Não sei como dizer…

– E D, você está de muito charminho, diga logo.

– Charminho? Charminho? Tá me tirando de frangote ou otário, Henrique?

O cara era uma bomba relógio impossível de conter. Entendi que a conversa só iria fluir se eu falasse no mesmo tom alto com ele. Daí eu usei as minhas técnicas de psicologia reversa aprendidas nos cursos de psicanálise, que nunca fiz:

– Ah, E D, na boa, você está cheio de frescurite aguda, você diz que vai falar e não fala, fica me ameaçando. Pior ainda, me levou para uma casa cheia de marmanjo estranho. Cara, na boa, sou seu amigo, se você ficar com gracinha pra falar o que está acontecendo vai tomar um safanão!

– Você disse o que, Vitarelli?

Eu tremi nas bases, mas continuei:

– Pô, para de ser marica, pô! E D, conta logo aí, senão vai tomar pancada!

– Como é que é?

– É isso aí, desembucha aí, agora, ou paga duzentas flexões! – eu disse.

Foram instantes de absoluto silêncio. Eu estava certo de que ele me quebraria todos os dentes. Eu não tenho experiência em ser babá de gente grande, menos ainda de adulto marombado. O E D ficou estático. Prossegui:

– O problema é familiar, anda, desembucha, é familiar?

– Não.

– É treta no trabalho?

– Nada disso.

– Vai ter que vender o carrão pra pagar dívida, diz aí, vai?

– Não.

– Então é mulher, fale logo E D, não tô com tempo pra ouvir choramingo, me conta, é mulher?

– É – ele murmurou.

– Fala mais alto, você não é Bodybuilder, pô?

– Sou, É. – ele disse.

– Então, diga!

–É, é, acertou, Henrique, a treta é com mulher, tá satisfeito, tá satisfeito, pô?

– Sim, pô!

– Então tá, pô!

– Pode crer, pô!

– Pô, então, pô!

Bom, se eu não havia apanhado até aquele momento foi pelo simples fato de ter ganho a confiança dele, mesmo que na truculência. Eu perguntei:

– Certo, diga logo de uma vez, E D, o que aconteceu?

– É que…

– E D, diga logo, ou vai ficar de mimimi?

–Mês passado saí com uma mulher,… Aí e recebi um… Um… um terra.

– O quê?

–Um terra…

–Pô, fala alto, o que houve E D?

– Fio terra, fio terra, fio terra, pô!

– Calma, não precisa gritar.

– Vitarelli, eu quebro seu pescoço!

O cara fez toda aquela cena só pra dizer que estava incomodado com um chamego especial que recebeu numa noite de amores casuais. Eu tive que aguentar toda aquela macharada prepotente só porque o E D estava com a consciência pesada. Conforme fui conversando com eu notei que o problema não foi o fio terra, nada disso, o problema era outro:

–É, eu curti, pô, qual é o problema, Henrique?

– Problema nenhum, você que ficou arisco – eu disse.

– Cala a boca, cara!

– Relaxa, não precisa pagar de machão.

– É que se eu falar isso com o pessoal da Chuca eles me matam.

–Ahahaha, cara, tem outro pessoal da Chuca que vai adorar ouvir isso.

– O quê?

– Nada, relaxe.

–Vitarelli, o que é que eu devo fazer?

– Absolutamente nada, você não é menos homem por conta disso, fica em paz.

– Mesmo?

– Claro, mas isso é coisa da sua cabeça, E D. Freud explica.

– Tá tirando onda comigo, Henrique, só porque você gosta de ler!

– E D, não se preocupe.

– Mesmo?

– Mano, relaxe, isso pode ser encarado de forma normal. – eu disse.

– Sei lá…

– Sua macheza vai bem, relaxe, sério.

– É que a sensação me confundiu. – ele disse.

– Sem neuroses.

– Pô, você vai espalhar essa história, Vitarelli?

– O que você acha, E D?

–Pô, posso confiar, Henrique?

– Claro – menti.

– Então está bem.

–Ah… E D, outra coisa, preciso fazer uma pergunta.

–Vai, pergunta, mas se for piada eu mato você com um chute.

–Cara, que é isso, fica calmo.

–Pô, pergunte!

– Qual sua idade mesmo?

– Faço 40 daqui dois meses.

–Bom, não deixe de procurar o proctologista.

– Ah, desgraçado!

– É sério, não se esqueça do novembro azul, só que…

– Só o quê? Diga logo, Vitarelli!

– Não chame o proctologista para participar da Chuca.

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