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A junkyzinha de Jundiahy

(…)

–Não, não, o nome é Alejandro Jodorowsky, um terço surrealista, um terço psicomágico e um terço doce charlatão, além do que ele é…

–Nossa, que maneiro! Vou pesquisar, pode deixar, adoro referências que aparecem num papo tipo aleatório, meio tipo sei-lá-o-que-eu-estava-falando!

– Entendi – eu disse.

– É que eu sou A-PAI-XO-NA-DÍS-SI-MA pela sétima arte, é minha vida, é tipo meio que a cachoeira da minha existência.

A conversa fluía bem, apesar de eu estar um pouco cansado de gastar informações e conhecimentos, essa coisa de mise-en-scène cinéfila esgota qualquer ânimo…

– Viu, mas voltando para o cinema europeu, tipo eu sou A-PAI-XO-NA-DÍS-SI-MA, eu amo Jean-Luc Godard e François Truffaut e Louis Malle e Jacques Tati e…

– Seu amor é amplo, pelo que entendi – eu disse, minando um pouco a cachoeira da existência dela.

– Ai, ahahahahahah, é mesmo! Eu sou A-PAI-XO-NA-DÍS-SI-MA!

– Percebi.

– Tem mais cerveja?

– Sim, vou pegar.

Levantei, fui para a cozinha e tomei fôlego. Eu não sabia ao certo o que estava rolando; se era flerte ou papo cabeça ou sessão de psicanálise ou resenha para blog cult de cinema iraniano. Enfim, pelo menos havia ainda muita cerveja. Voltei com duas latas, trincado de tão geladinhas.

– Obrigada!

– De nada.

– Sabe, uma coisa que eu adoro é fazer mapas astrais dos filmes que eu vejo.

– Como?

– Calma, eu explico, vou acender outro cigarro.

Já havia passado de meio maço, com certeza. E a conversa não tinha tido sequer uma hora. Cada ser humano escolhe o combustível de que necessita, notei que ela era, pelo menos, da turma do copo e da fumaça.

– Então, eu pesquiso o ano e os locais em que o filme foi feito e procuro a latitude e a longitude onde filmaram a cena final. É, tipo assim, tipo uns hobbies meus. Coisa que eu sempre faço.

– Caramba, essa é novidade pra mim.

– Jura?

– Juro, eu achei muito alternativo.

– É, sou muito alternativa, sou A Underground-alternativa da cidade!

– Eu percebi. E essa coisa de mapa astral dos filmes dá certo?

– Sempre – ela respondeu muito séria.

– Com precisão de ficção científica? – eu disse, jogando certa ironia.

– Como assim?

– Deixa pra lá, bobagem minha. Então você criou esses mapas?

– Sim, sim, eu inventei. Ahahaha.

– E são muitos?

– Nossa, são! Uma infinidade, eu vejo dois filmes por dia.

– E escreve um mapa astral para cada um deles?

– Não, tipo escrever os mapas daria muito trabalho, eu, tipo, sou A-PAI-XO-NA-DÍS-SI-MA pela arte, mas de um jeito mais contemplativo, só isso.

– Bom, mas então você faz isso usando algum programa de computador, ou coisa assim?

– Não, não.

– Ué, mas você disse que faz os mapas.

– Sim, eu faço muitos, muitos mesmo!

– Tá, mas como você faz?

– Por telepatia.

– Como assim?

– Eu imagino os mapas, depois eu vou construindo e daí eu os guardo.

– Onde?

– Na minha cabeça.

Fui entendendo que a Junkyzinha tinha um jeito muito peculiar para lidar com as artes plásticas, dramáticas, literárias, musicais, psíquicas e, sobretudo, cinematográficas. Fazer mapa astral de filmes por meio de técnicas telepáticas era, para mim, algo experimental demais, eu me senti em pleno papo de gente noiada. Em anos de universidade – e depois como professor de ensino médio – eu vi muita coisa, convivi com pessoas peculiares, malucas, chapadas e delirantes (eu mesmo não sou muito bom das ideias, às vezes), mas as saladas de frutas da L. M.– cujas frutas eram cinema e signos – estavam pra láde extravagantes, eu diria que estavam piradas, com generosas doses lisérgicas.

– Sou meio doidinha!

– Meio?

– Bom, doidinha é jeito de dizer, eu sou é muito louca!

– Está falando sério?

– Juro pelo Tarkovski. Tem outra cerveja?

O ritmo estava acelerado e nas mãos dela as latas e longnecks secavam feito cantil de água para alguém perdido no deserto.

– Gosto de Tarkovski, principalmente o fato de ele narrar a…

– Eu sou muito, mas muito A-PAI-XO-NA-DÍS-SI-MA pelo meu Andrei Tarkovski! Ele é tudo, já vi, tipo, todos os filmes dele, tipo, umas cinco vezes cada! Ai!

– Caramba, você gosta mesmo, não é?

– Sim e o mapa astral do filme Nostalgia é Leão com ascendente em Peixes, lua em Aquário e regência em Capricórnio. Igualzinho o meu!

– Tá, eu não entendi.

–O filme Nostalgia é Leão com ascendente em Peixes, lua em Aquário e regência em Capricórnio, acredita?

– A frase eu escutei bem, mas o que isso quer dizer, exatamente?

– Nossa, é uma confusão explicar – ela disse enquanto pegava outro cigarro, eu já havia perdido as contas.

– Ué, explique.

–Bom, o filme Nostalgia do Tarkovski é de Leão com ascendente em Peixes, lua em Aquário e regência em Capricórnio.

– Sim, mas o que isso tem a ver com você?

– É que os meus mapas astrais não mentem.

– Imagino.

– E isso confirma que eu sou muito, mas muito mesmo A-PAI-XO-NA-DÍS-SI-MA pela sétima arte.

– E o mapa que você fez sobre o filme, por telepatia, lhe disse algo?

– Que o filme Nostalgia é muito eu e eu sou muito o filme Nostalgia.

– Todos os mapas astrais que você faz são esse resultado?

– SIM, sim, como é que você adivinhou?

– Apenas arrisquei um palpite.

– Eu, os filmes e os meus mapas astrais vivemos numa louca relação de amor mútuo, acredita?

– Imagino. Nascidos um para o outro?

– Isso, isso mesmo! Henrique, tipo, você não acha esse meu método, tipo genial, tipo muito louco?

– Não acho.

– Não?

– Tenho certeza.

– Nossa, que bom, eu sou genialmente louca!

– Sim, está na corda bamba.

– Que?

–Esquece, falei sozinho. Você sempre usa esse método?

– Sim, principalmente, quando estou loucona! Também falo comigo mesma.

– Ah, isso é frequente?

– O quê?

– Ficar loucona.

– Só nos dias do mês com números pares.

– E falar sozinha?

–Nos dias com números ímpares.

– Ah, entendi, pura loteria.

– E aí, tipo, tem outra cerveja?

– Sim, vou pegar.

Abri a geladeira e senti que o papo ia ficar por aquilo mesmo: mais loucos que o hipopótamo machadiano.

– Bom, pelo que compreendi, se eu não estiver viajando muito, você curte telepatia, signos e cinema? – eu disse, na intenção de resumir o assunto.

– Muito!

– E os mapas estão todos muito bem guardados aí – apontei em direção à cabeça dela e depois enchi nossos copos com a divinatória cerveja.

– Claro, mas só para os filmes que eu gosto. Tipo, todos os do Tarkovski, os do Akira Kurosawa, os do Vittorio De Sica, Woody Allen, David Lynch, Fellini, Sukorov…

– Entendi, entendi. Bom, os filmes do Tarkovski são quase uma unanimidade. O

Ingmar Bergman dizia que…

– Ai, ai, ai, eu sou A-PAI-XO-NA-DÍS-SI-MA pelo Bergman!

– Imaginava. Também fez mapa astral para os filmes dele?

– Não.

– Não?

– Não, não sou lunática também, né?

– Absolutamente.

– Eu sou apenas A-PAI-XO-NA-DÍS-SI-MA por tudo que ele fez!

– E não fez mapa astral para nenhuma das obras?

– Não.

– Mas se você gosta dele…

– Com Bergman é diferente… – ela disse, com certo ar de santidade.

– Diferente como?

– Eu converso com ele!

– Sério?

–Sim, mas aí a Bibi e a Harriet Andersson aparecem e me atrapalham um pouco.

Das duas uma: ou a Junkyzinhade Jundiahy estava tirando um sarro homérico com a minha cara de professor recém-desempregado ou, talvez, ela tenha problemas alucinatórios graves, ou, quem sabe, faz uso de algum estupefaciante novo que eu desconheço completamente. Resolvi embarcar de vez nos pensamentos dela, eu queria ver até onde aquela parafernália iria!

– Interessante. Você vê essa turma toda em sonhos noturnos ou visões depois do café da manhã?

– Mais ou menos, um pouco de cada.

E, de repente, ela arrancou os sapatos, esticou as pernas e, enquanto sacava mais um cigarrinho e mexia no celular, deitou a cabeça em meu colo. Ficamos olho no olho.

– Não são bem imagens ou visões ou sonhos, mas os vejo, sempre. O mais nítido mesmo é o som, eu os escuto e a gente conversa.

– Com o Bergman, seus atores e atrizes?

            – Sim. E as melhores conversas são com a Liv.

– Com a Liv Ullmann?

– SIM! Ela é uma deusa, adoro conversar com ela, somos íntimas! E são mesmo as, tipo, melhores conversas, ela me ajuda a criar os mapas astrais telepáticos e, assim, eu fico, tipo, ainda mais todinha A-PAI-XO-NA-DÍS-SI-MA pelo cinema cult.

– Vocês conversam?

– Sim,

– Mas ela fala em sueco?

– Isso não importa, a gente se entende.

– Suas visões têm google tradutor?

– Tem outra cerveja?

– Pegue a minha, sem problemas – estendi o meu copo ainda cheio.

– E você, Henrique, é apaixonado por cinema?

– Em termos.

– Tá, mas você é ou não é louco por cinema?

– Só o suficiente.

– O suficiente para quê?

– O suficiente para não ser cinéfilo.

– Entendi – ela disse, levantou-se rapidamente; acendeu outro cigarro; mexeu, um tanto afoita, no celular; e voltou a reclinar a nuca, agora apenas na minha coxa esquerda.

– Sabe, eu sou A-PAI-XO-…

–Eu já sei, já sei: você é A-PAI-XO-NA-DÍS-SI-MA pela sétima arte, pelos signos do zodíaco, por telepatia e outras brisas, isso?

Estávamos com os rostos cada vez mais próximos, indo de encontro numa espécie de câmera lenta, lentíssima.

– Sim, mas tem outra coisa que me encanta…

– Teatro telepático de marionetes?

– Sim, mas não é isso.

–Hiper-realismo na pintura de István Sándorfi?

– Não conheço este.

– Quase ninguém o conhece por aqui.

– Tá, tá, mas adivinhe o que me encanta…

– Hmmm, psicografar cartas ditadas pelo Glauber Rocha?

– Não, nãoé isso…

– As baladinhas e bares xumbregas daqui?

– Às vezes, geralmente aos sábados, mas não é isso também…

– Já sei; os nariguileiros de Jundy City?

– Nananinanão…

– Então?

– Então, ué, adivinhe Henrique…

– Desisto

– Feijoada noturna vegana, minha amiga está passando aqui, vamos lá?

Era o típico passeio que me deixaria mais perdido que pijama em lua-de-mel e mais apertado que calça de cantor de sertanejo universitário. Minha razão apelava dentro de mim e queria que eu respondesse um sonoro NÃO.

E, como sou um pretenso intelectual latino americano, de forma clara e objetiva eu rebati minha razão e respondi à pergunta:

– Sim, bora lá. – eu disse, arrependido por antecedência.

One comment

  1. Sensacional Hildon, muito bom mesmo.

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