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Como ser escritor/a em Jundiahy, a cidade que não lê!

Sexta-feira passada eu voltava, muito cabisbaixo, de uma ida à lojinha de crédito financeiro consignado, ali na Rua Barão de Jundiahy. Esses agiotas licenciados adoram esfaquear pobres: com muito carinho – e de forma vagarosa – enfiam o punhal e num dado momento, ao invés de tirarem a lâmina, eles a giram, várias vezes, em ambas as direções. Daí a ferida financeira é aberta, o sangue dos juros se espalha e resta ao esfaqueado apenas o dom de agonizar entre um empréstimo e outro.

Enquanto eu refletia sobre essas analogias e metáforas malfeitas a minha fome gritou no estômago. O sol estava forte, nem parecia que os sinos da matriz anunciavam 16h20min. Desde a suspensão estúpida do horário de verão o meu relógio biológico nunca mais ficou em paz novamente.

Dobrei uma esquina e resolvi parar na Casa de Massas Padroeira (olha o merchã!), famosíssima!

Sentei. Pedi três coxinhas de queijo e, claro, aquela cerveja marota. Meu atual estado de desemprego-criativo tem me mostrado que a vagabundagem é melhor amiga e que o álcool, em homeopáticas doses cavalares, é o confidente em toda e qualquer hora.

De repente, não mais que de repente, como diria o poeta, senti dois puxões no meu ombro esquerdo.

– Oi, desculpe, desculpe, eu sou G D, prazer em conhecê-lo pessoalmente, você é aquele escritor que sempre fala sobre Jundiahy, não é?

– Eu tento.

– Vitório, não, não… Vitorinni, Vital… Ah, lembrei! Vitarelli, seu nome é Henrique Vitarelli, não é?

– Sim, nome de guerra – eu disse e ri, muito sem graça.

– Aí, minha mãe odeia os seus textos, desculpe por falar. Eu sou a P. Muito prazer!

– Mas e você? Gosta?

– Sim, eu não leio muito, mas, quando leio, quase sempre curto – disse P.

– Então é o que importa.

– Cara, você escreve?

– Sim, sempre que possível – eu disse.

Eram três jovens, recém-saídos do ensino médio. P, uma loira charmosa com pinta de artista-plástica-sempre-iniciante-e-rockeirinha e que levava a tiracolo um garoto, A M, metido a skatista, mas de certo não passava de um marmanjinho de condomínio, cuja mãe ainda deve cortar o bife do almoço; e G D, que tinha um jeito mais livre, apesar de tímida, era uma morena de cabelos muito cacheados e com óculos de armação vintage, uma autêntica Medusa dos dias atuais, uma graça. Eu me levantei, só para ficar à altura dos lindos olhos quase verdejantes dela.

– Eu vi você duas vezes recitando poemas, lá no Slan Do Zé – disse G D.

– Deve ter sido horrível, desculpe – eu disse.

– Que nada, você gritou como louco que Jundiahy não tem heróis. Foi da hora! – G D falou, e sorriu.

– Ô tio, saca, eu também sou poeta, já fiz uma música para o Chorão do Charlie Brown Jr, manja? – A M, skatista de playground cortou. Ignorei-o.

– Eu quero ser escritora, o senhor me diria como?

– Senhor? Sou tão idoso?

– Pô, tiozinho, você tem essa barba grande aí, tem uma baita cara de Matusalém, manja?

– Cala a boca A M – disse P, morrendo de vergonha do namorado/crush/amigo colorido ou o que quer que fosse o pirralho de cabelos ensebados. Ignorei-os.

– Então – retomou G D – tem problema se me passar umas dicas?

– Nenhum – eu disse.

– Eu sou uma tonta, nem trouxe meu caderninho e minha caneta de estimação.

– Ai amiga, que azar, né! – disse P.

Num gesto calmo e ainda sem jeito eu estendi a minha caneta à G D e, como ela também estava sem papel, peguei uma das folhas da simulação de contrato do empréstimo que eu não consegui fazer, e indiquei o verso.

– Nossa, que legal! – disse a apetitosa P.

– E então, tiozinho, você curte umas batalhas de rima? Todo dia eu vejo os muleke zika rimando – cortou A M, novamente.

– Você vai às batalhas?

– Nem vou, fica tudo em SP, tiozinho. – ele respondeu.

– Só encarar a CPTM, sem problemas – eu disse.

– CPM, aquela banda antiga lá, tiozinho, CPM 22, isso? Vish, nem curto…

– Não, o trem, a CPTM é o trem, da linha 7-rubi.

– Ah, pode crer, tiozinho, acho que já ouvi falar.

– Então, pegue o trem e vai.

– Vish, moiado, minha mãe embaça, manja?

– Bom, tem o Duelo du Bronks e a Batalha da Banca, aqui em Jundiahy mesmo, vamos?

– Onde é, tiozinho?

– Na estação terminal Jundiahy, lá na Avenida dos Ferroviários, podemos ir qualquer dia. Vocês duas também, com certeza vão gostar – eu disse e apontei para as garotas.

– Eu vou – disse G D.

– Eu também – P sorriu, deu um pulinho e bateu palmas.

– Pô, tiozinho, mas os caras do Duelo aqui mandam bem?

– Então, sobrinhozinho, só indo para você saber, pede autorização para a mamãe.

As meninas riram. Apenas imaginei o quão cagão o garoto realmente era: típico adolescente arrogante, mas que só empinou pipa no ventilador do apartamento, eu dei aulas para tantos desse tipo…

Pedi mais alguns salgados, puxamos três cadeiras da outra mesinha e nos sentamos.

– Sério, eu amo ler e escrever, que bom conhecer um escritor vivo! – disse G D, entusiasmada.

– Gente viva que escreve é raridade, ainda mais aqui em Jundiahy – eu disse.

– E quais as dicas que você daria para minha amiga? – disse P.

– Não me sinto tão escritor assim ao ponto de dar conselhos – respondi, enquanto coçava a nuca.

– Ah, mas o senho…, digo, mas você, você é escritor, ué, é só me dizer que eu anoto tudo – disse G D.

Às vezes me esqueço de que para quem tem 18, 19 ou 20 anos tudo é ainda fantástico. Reparei na empolgação de P e G D, a juventude delas se insinuava de forma tão tranquila entre sorrisos e decotes. Com aquela idade eu sequer sabia completar uma frase no papel e G D demonstrava um interesse encantador pelo fato de ver um inútil como eu, um simples escritor municipal nelmezzodelcamin para lugar nenhum. Pensei em Bukowski, pensei em Neal Cassady e, claro, me senti um pouco fajuto como Humbert Humbert. E com muita boa vontade e sátira iniciei as dicas:

– Bom, vamos lá, G D, anote aí as principais regras para tornar-se a maior escritora em Jundiahy, uma cidade abarrotada de gente que não lê:

1º – Não escreva, apenas finja que escreve – Ninguém vai ler seus textos, o importante é a pose, a aparência e a manutenção da vaidade pública que tanta gente aqui de Jundiahy sustenta, sobretudo na literatura;

2º – Tenha um gato ou uma gata de estimação (pode ser felino/a, ou não) e poste fotos – Ninguém vai ler seus textos, mas irão amar suas imagens fofinhas e manhosas;

3º – Mantenha ao menos 10 contatos nos grupos do seu celular e sempre mande aquelas horríveis mensagens de “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” – Ninguém vai ler seus textos, mas é estratégico conviver especialmente com certas velhotas que acham que só soneto é arte; com delegados e advogadinhos reaças que se acham eruditos; e com artistas que nunca estudam nada sobre processo criativo;

4º – Tenha inimizades, fortaleça a contenda e não apoie a cena local oficial da literatura – Ninguém vai ler seus textos, mas é primordial botar fogo no parquinho;

5º – Puxe (falsamente) o saco de tubarões e baleias da arte local – Ninguém vai ler seus textos, mas eles e elas ficarão constrangidos e, bem rapidinho, vão perceber que são fraudes da cultura;

6º – Tenha vícios, seja uma pessoa desregrada e revolte-se sempre – Ninguém vai ler seus textos, mas saiba que a literatura que não incomoda não passa de receita de bolo ou autoajuda ou espiritualidade ou Harry Potter; e

7º – Nunca obedeça a regras de ninguém que não você, tome cuidado com os bons conselhos, geralmente eles vêm de gente invejosa ou de algum coach, cuidado! – Ninguém vai ler seus textos, mas antes só que (supostamente) bem acompanhado/a.

Entre uma e outra regra a gente conversava e trocava referências, falava de filmes e músicas loucas. A M, o skatista de sapatênis, pegou um táxi e foi comer mingau com a vovó, uma conhecida decana das letras jundiahyenses, viúva de um coronel que eu não direi o nome.

G D e P permaneceram ali, elas jogavam largos sorrisos em minha direção e continuaram perguntando mil coisas por mais um tempo. Resolvi que poderia mostrar a elas o sobradinho da Rua Bernardino de Campos, mas aí é outra história, deixemos no folclore…

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