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Duas historietas sobre mendigos

Não, não se tratará aqui de romantizar a pobreza ou fazer pouco caso dela. Eu sei e vocês sabem que a desigualdade social e econômica no país – além dos privilégios da elite – criam cada vez mais pessoas paupérrimas em situação de desalento e desabrigo. Assim sendo, lutar por moradia digna para as gentes não é radicalismo, mas sim uma necessidade urgente para repensarmos as condições das cidades e derrubar a especulação imobiliária. Estes pequenos episódios lançam ares de alegria e peculiaridade que também existem entre moradores de rua.

I.

Somente quando comecei os estudos no ensino médio foi que percebi que era de uma família pobre. Minha mãe me matriculou no Antenor Soares Gandra, mas nós morávamos do outro lado da cidade. Nas regiões mais periféricas existem pouquíssimas escolas para além do ensino fundamental e isso revela a inexistência histórica de um planejamento educacional na cidade, no estado, no país.

Enquanto escolas particulares dispõem de infraestrutura e estão geralmente localizadas em regiões agradáveis, silenciosas e harmônicas, os colégios públicos mais se parecem com presídios descascados. E há ainda gente que enche a boca ao falar absurdos e crendices como a meritocracia…

Chegar e partir todos os dias, em ônibus aos pedaços, esgotava a minha paciência com a escola e ressaltava meu desconforto com o centro da cidade. Nunca fui um estudante interessado e as horas em transporte público contribuíram para meu descaso.

Uma vez a cada duas semanas meu pai me dava R$ 10,00 para conseguir me virar com algum lanche ou utilizar em caso de urgência.

– Henrique, dinheiro e mulher não merecem desaforos! – sempre dizia meu pai.

Com o passar do tempo aconteceram duas coisas: 1: meu pai ficou desempregado; e 2: saquei que o jeito era levar um pão com mortadela e queijo na mochila todos os dias.

Naquele fim de tarde eu subia a Rua Barão de Jundiaí depois de mais um dia de aulas chatas. Lembro-me que naquele tempo eu economizava todos os trocados só para poder comprar um jogo de cordas para minha guitarra velha.

– Cinquenta centavos.

– Oi? – eu perguntei tirando os fones do walkman velho que havia herdado do meu primo.

– Jovem, cê tem cinquenta centavinhos? É pra tomá pinga, não minto, tô pra ficar bebaço.

– Calma aí, me deixe ver aqui… – eu disse.

Vasculhei minha carteira com escudo do meu time de coração.

– Toma aí, tenho só essa moeda.

– Pô, falei que só queria cinquenta centavos, cacete, eu tô bêbado e você tá surdo, é? – disse irritado e jogou a moeda longe.

Eu não entendi absolutamente nada. Não sei se o sujeito era um mendigo soberbo ou um alcóolatra tresloucado. Corri e apanhei a moeda de R$ 1,00 porque dinheiro não merece desaforo. A coisa ficou por isso mesmo, como um acontecimento nonsense que até hoje ficou pregado na minha memória.

II.

No meu sétimo semestre de filosofia na magnífica Universidade Federal de São Paulo eu ainda era ingênuo o suficiente para acreditar que minha empolgação faria de mim um pesquisador universitário assim como meus professores – e eu ouvia, compadecido, alguns deles se queixarem daquilo que eles acreditavam ser ínfimos salários. Eu acreditava piamente no discurso acadêmico, mas vivia com migalhas nas mãos, temia me tornar professor do estado ou, pior: ter vaga apenas como “funcionário” da categoria O.

Numa quinta-feira do mês de junho eu atravessava a via Dutra, saindo dos confins do bairro dos Pimentas, Guarulhos, em direção ao metrô Armênia numa lotação abarrotada de estudantes com expectativas mais ou menos semelhantes e tolas como as minhas.

O trajeto era sempre longo e naquele dia eu teria que voltar para Jundiaí, sendo assim, era preciso encarar mais vinte minutos de metrô e duas horas de trem no horário de pico, um verdadeiro cenário de cotoveladas, subaqueira, peidos, demoras, gritos, apertos e encoxadas, enfim: os sete suplícios que todo pobre conhece quando utiliza metrô, trem ou ônibus.

Desci da lotação, despedi-me de dois ou três colegas de curso, evitei acender um dos dois últimos cigarros que levava no maço. Eu não podia perder tempo. Peguei a carteira. Susto. Não tinha mais bilhetes para o metrô, meu cartão também estava sem saldos para uma passagem e, pior, não tinha sequer um trocado.

Fiquei tenso, um pouco desesperado.

Tentei pedir uma passagem na bilheteria. A moça ignorou e pediu para que eu não atrapalhasse a fila cada vez mais gigante. Comecei a suar frio e passei a pedir uma ajuda. Ninguém se sensibilizou.

Fui até os arredores da estação e pedi para alguns camelôs o valor da passagem.

– Ah é? Mermão, eu tenho cara de banco, te vira? – disse um deles, talvez o raivoso que se sentia prejudicado.

Depois de algum tempo eu já havia revirado a mochila e a carteira três ou quatro vezes à procura de alguma nota ou bilhete que eu não havia percebido. Nada.

– Toma aí, com isso você paga o bilhete. – disse uma voz surgida próxima ao meu ombro esquerdo.

– Cara, muito obrigado! – agradeci.

Um mendigo com aparência paupérrima havia acompanhado um pouco do meu desespero e aproximou-se para me ajudar. Eu não tinha sequer uma garrafa com água, uma maçã ou lanche para retribuir. Naquele dia cheguei a Jundiaí, a cidade sem heróis, envolto de uma lembrança recente, quase miraculosa, de um gesto de compaixão, foi uma linda cena dostoievskiana.

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