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Lista de celebridades & digital influencers de Jundy City: a efêmera felicidade dos likes – parte I

A literatura do presente e do futuro, pelo menos um futuro que contemple as próximas duas ou quatro décadas, será marcada por listas, Emoji, curtidas, Inbound Marketing, likes, Crowdfunding, dislikes, compartilhamentos, Vloggers, Selfies, Unfollow, cancelamentos, Retweet, Directs, haters. Hiperlinks, Hashtag, Memes, Avatares, Reddit, Ask.fm, Big Data, blocks, Brandjacking, Brand Persona, e centenas de outros termos, atividades e questões digitais. Talvez o fenômeno mais imediato seja o da projeção da individualidade de um modo jamais imaginado.

Para acalorar essas questões serão sugeridas daqui em diante pequenas listas que não necessariamente estarão em ordem de importância ou relevância de celebridades e digital influencers–presentes na amável terra querida Jundiahy:

O escritor irrelevante: H V M tem 1.149 seguidores no Instagram e segue 1.575 perfis. Viveu em bairros periféricos como Vila Hortolândia, Parque Centenário, Bairro dos Fernandes e Jardim Celeste (esse progressivo distanciamento do centro é reflexo da especulação imobiliária que reina na cidade e expulsa os mais pobres condenando-os aos purgatórios do transporte público). H V Macredita ser o maior poeta municipal incompreendido e diz que não é valorizado nesta cidade provinciana, se intitula politicamente anarquista, mas não passa de um cagalhão que está sempre em busca de trocados, todavia, tem convicções artísticas. Toma porres três vezes por semana e jura que não tem problemas com álcool, ficou desempregado no dia 07 de dezembro do ano passado e acredita, de forma muito ingênua, que a literatura salvará o Brasil da sua derrocada rumo ao apocalipse neoliberal-autoritário. Em seus poemas H V M sempre aborda temas promíscuos, satânicos e psicodélicos que chocam as mentalidades mais pomposas da fantástica Academia Jundiahyense de Poetas e Poetisas (meia dúzia de aristocratas que decoraram versos de Manoel Bandeira, e só), mas o que ninguém sabe é que ele sempre reza um Pai-nosso antes de dormir. Deve nunca menos de três meses de aluguel, toca violão de forma medíocre, quando jovem agrediu um mendigo, mas jura que foi por legítima defesa, e é arrogante para com os pais, só porque paga as contas de água e luz. Irá desativar suas redes sociais no dia do seu aniversário, mas dois dias depois retornará com todas, distribuindo likes até para os perfis de quem ele detesta.

O promoter de raves elitistas: G R Jr está voando nas redes sociais, desde quando se mudou para Portugal e levou uma câmera fotográfica (roubada) na mala. Ele é o quarto filho de um casal de operários: mãe costureira e pai metalúrgico. Morre de vergonha da sua origem humilde e gasta muito dinheiro para fazer luzes no cabelo e microtatuagens, tem 7.765 perfis de seguidores no Instagram, curte, comenta e, sempre que possível, compartilha fotos de amigos e amigas, sobretudo as imagens repletas de filtros do pôr-do-sol em Jundiahy. Fez um ano de psicologia, mas desistiu; fez um ano de propaganda e marketing, mas desistiu; fez um ano de fisioterapia, mas desistiu; e fez um ano de logística, mas desistiu. Ele segue apenas845 perfis no Instagram, não gosta do Facebook, mas possui 4.003 contatos por lá e vive instalando e desinstalando o WhatsApp. Tem um perfil fake que usa para stalkear uma das suas incontáveis ex-namoradas. Bloqueou G B antes de ter se mudado para Lisboa, pois ela não pagava uma dívida antiga de cartelas de LSD. G R Jr adora museus e teatros. G R Jr até hoje se gaba por ter popularizado as calças emos bem coloridas na cidade no início do século XXI e por supostamente ter dado uma grande festa (que degringolou em uma doce orgia), antes de ter ido para um intercâmbio de seis meses na Austrália, onde não aprendeu inglês. G R Jr, do outro lado do Atlântico, analisa com minúcia a política brasileira e posta textões com frases antirracistas, sobretudo no Twitter onde tem 6.458 seguidores. Toda manhã ao atravessar bairros lisboetas em busca de subempregos G R Jr escuta os maiores lançamentos do Rap brasileiro e sonha com apartamentos refinados em Berlin, distante dos africanos e haitianos com quem tem que disputar vagas temporárias em um país que foi colonizador, mas agora parece uma choupana. G R Jr, como bom digital influencer que é uma forma sutil de Doppelgänger dos dias atuais, assiste discursos esparsos de Antônio de Oliveira Salazar no You Tube, ele diz que é por curiosidade histórica, só por curiosidade mesmo. G R Jr é feliz, não deseja retornar ao Brasil antes das eleições de 2022 e em breve comprará uma motocicleta azul.

A regueira oprimida pela família católica: A O M atingiu mais de 783 novos perfis de seguidores no Instagram e 468 no Facebook desde o mês de dezembro até este instante, o motivo é porque ela resolveu fazer dreads nos louros cabelos. Ela usa o Telegram Web, para manter em média 145 contatos, e escreve uns poemas toscos sobre gatinhos às vezes demissexuais, às vezes lésbicos, às vezes bissexuais, mas sempre, sempre, depressivos. Seus pais acharam que ela havia virado hippie ou esquerdista ou maconheira (ao contrário da vasta – e parasitária – classe média de Jundiahy, a família O M, muito refinada, não vê esses três termos como sinônimos, clichês ou estereótipos) e não conseguiam entender como uma garota que tem de tudo e que mora no melhor condomínio da cidade–que, entretanto, não é um condomínio, mas sim, como todo tradicional residente da Malota diz, “um lindo e hospitaleiro bairro nobre fechado, seguro, localizado aos pés da Serra do Japi”, traduzindo: onde pobre só entra para entregar comida, fazer faxina, construir paredes ou levar droguinhas –consegue andar com gente desqualificada, gente negra ou parda, gente homossexual e gente que usa entorpecente. A O M, após a arquitetura capilar, apanhou do pai, que se diz descendente de italianos. A O M, após desabafar e falar malda própria família em suas redes sociais por conta da surra opressora que levou do papai, apanhou – de verdade – da mamãe, que se diz descendente de alemães e italianos. No fim de 2021, que logo chegará, A O M vai ganhar um carro, mas só se cortar as tranças rastafári e voltar a frequentar a igreja, como uma boa cidadã jundiahyense. A O M acha topzera o Spotify e sua história inspiradora de superação a fez criar um blog, que já tem mais de 1.563 visitas.

A pré-universitária complexada:B Y A estuda com afinco para um dia ser cardiologista e esbanjar a riqueza que irá adquirir, está no quarto ano do cursinho pré-vestibular, tem 3.299 seguidores no Instagram; desde novembro do ano passado faz vídeos picantes no TikTok, mas ninguém que mora na cidade, em especial no bairro do Anhangabaú, sabe (ainda!); e passa horas entre apostilas e planers. Possui três perfis no Facebook recheados de gente amiga, coleguinhas e princesas biscoiteiras, ela não desgruda do Twitter por nada neste mundo. B Y A, sempre que possível, posta frases lacradoras contra o mundo falocêntrico, o patriarcado, o machismo estrutural, a prepotência masculina, o individualismo dos homens heterotops e contra esquerdo machos petulantes. Sua mãe lhe dá apoio em tudo, de forma irrestrita. Uma das diversões compartilhadas por mãe e filha é acompanhar a programação do Discovery Home & Health e o perfil do Discovery Home & Health no Instagram, elas amam fazer planos, organizações e reformas para a casa. Nem B Y A e nem sua mãe sabem cozinhar, lavar e passar, mas a empregada doméstica delas – que mora em Botujuru e pega os lotados trens da CPTM repletos de assediadores masturbatórios – sabe fazer tudo isso muito bem, sempre às terças e quintas. B Y A adora secretamente filmes BDSM e peculiares desenhos japoneses onde o contexto central é a submissão, a violência verbal, o estapear de nádegas e, claro, as formas mais sutis de desprezo.

O universitário pobre: J I N desinstalou o Facebook, mas no Instagram possui 2.121 seguidores e segue 1.456 perfis. Tem apenas 14 contatos no WhatsApp, na maioria familiares e amigos próximos. É um admirador da literatura de fantasia medieval e de romances investigativos, espera arranjar um emprego em breve para que, finalmente, possa completar sua coleção das obras da meiga Agatha Christie, livros refinados, bilíngues e com as capas costuradas e duras, confeccionados em um país onde a fome predomina.

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