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Lista de celebridades & digital influencers de Jundy City: a efêmera felicidade dos likes – parte II

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E hoje darei continuidade ao nosso arquivo provisório – que é um compilado para gerações presentes e futuras – das grandiosíssimas figuras do mundo digital circunscritas à nossa cidadela: Jundiahy, sim a mesma Jundiahy que não tem – e nem nunca terá – heróis.

É importante dizer que estes dados serão valiosos um dia. Talvez leitores e leitoras deste fugidio ano de 2021 tenham dificuldades enormes em compreender esse gênero quase iconoclasta de escrita e de assuntos, mas as mentes atentas compreenderão muito bem meus intentos, sobretudo as que viverão em 2121. O futuro compreenderá que eu, um escritor irrelevante do entremilênios, contribuí como fonte historiográfica.

Além, é claro, de colocar a minúscula e anêmica literatura jundiahyense no panorama estadual, talvez nacional, talvez até mesmo mundial.

O tempo é um carrasco que jamais se detém, é implacável, é também a força que arrasta os fracassos e conquistas de uma época. Tempo, tempo, tempo que não podemos deter. Nós, pessoas de agora, estamos encrustadas numa pele eletrônica que se tornou a nossa identidade, a saber: as redes sociais. E são elas que, sorrateiramente, engolem o tempo; são elas que trarão inúmeros paradoxos – e possibilidades – à produção literária.

Neste exato momento as informações planetárias circulam, sobretudo, nas seguintes plataformas:
Facebook
YouTube
WhatsApp
Facebook Messenger
WeChat
Instagram
LinkedIn
Pinterest
Twitter
TikTok

Esses conglomerados de algoritmos, que transformaram o ser humano ao mesmo tempo em produto e em consumidor voraz, aos poucos se transmutarão e vão, acreditem-me, – a partir de 2048 – comprar bairros, depois cidades, depois governos, depois moedas, depois idiomas, depois outros meios de comunicação, depois algumas religiões, depois substâncias psicoativas, depois pessoas, e por fim países inteiros. E quando, em 18 de maio de 2079, o Instagram se tornar a primeira estação interplanetária, a tentativa de colonização dos planetas do sistema solar terá início.

Mas esses assuntos não serão tratados aqui, não agora. São informações sigilosas que fogem do alcance da compreensão da maioria dos seres humanos que vivem no presente e que dão importância demais às suas vidinhas repletas de trabalho, lazer e rancores.

Retomemos nosso foco.

Sugiro aqui pequenas listas (geralmente com cinco representantes) que não necessariamente estarão em ordem de importância ou relevância. São as celebridades e digital influencers de Jundiahy. Vamos lá:

As irmãzinhasHaulleseiras: B S C e M S C.: B S C é a mais velha, possui 6.056 perfis que a seguem no Instagram, na maioria são homens e mulheres com tatuagens e piercings; segue apenas 146 perfis e possui uma segunda conta no Instagram, somente para jundiahyenses adeptos e adeptas do poliamor: é um grupo muito exclusivo composto por figurinhas da classe média e da elite da cidade, são pessoas que acreditam estar fazendo a derradeira revolução sexual na cidade, geralmente ganham mesadas dos pais, a partir de R$ 1.500, 00. B S C odeia ficar em casa – porque é pobre e filha de um lar desfeito por conta do álcool e da anorexia, mas isso ninguém para além do Bairro Ponte São João sabe. B S C ama corotes jundiahyenses, poetas jundiahyenses, artistas jundiahyenses e traficantes jundiahyenses, é fã dos bloquinhos de carnaval jundiahyenses, das guloseimas jundiahyenses, das amigas, amigos e amiges jundiahyenses que fazem fotografias estilizadas e ensaios sensuais para mulheres jundiahyenses se conectarem com o sagrado feminino jundiahyense. B S C possui uma beleza exótica, mas essa beleza só aflorou depois que ela superou os traumas que sofreu com o padrasto, com a mãe tóxica e um ex-namorado intragável e agressivo. B S C ama ler livros de magia e ocultismo, ela fez parte do coral da Igreja Batista mais antiga de Várzea Paulista. Considera-se a mulher livre por excelência de Jundiahy e demais cidades-pocilgas da região e tem uma vida sexual agitada – vários marmanjos e gurias disputam a sua atenção (uma das maiores façanhas de B S C nas redes sociais – e na vida – foi ter angariado 12.345 curtidas em uma foto sem maquiagem!). Por sua popularidade nas redes sociais – e, em contraposição–, sua discrição na vida particular, B S C, em janeiro de 2019, recebeu um convite inusitado para ser candidata à vereadora por um partido que não será citado. B S C negou o convite, mas foi sugar baby de um empresário-politiqueiro importante, do ramo do comércio – o nome dele também não será citado aqui.

M S C, extremamente tímida e estudiosa. Todavia, por ser otaku, gameplayer, cosplayer e ruiva com sardas nas bochechas, M S C tem 17.563 seguidores no Instagram; 4.989 seguidores no Facebook; 16.022 seguidores no Twitter; uma média de 15.000 visualizações em suas postagens no TikTok(M S C sabe como estimular adolescentes mais jovens que ela, M S C passou os dois últimos anos do ensino fundamental e os três anos do ensino médio – feitos na Escola Padre Manoel de Nóbrega – dedicando-se à produção de Fanfics extremamente bem elaboradas, M S C quer ser escritora). M S C e sua irmã mais velha, B S C, são as maiores celebridades que frequentam o Bar do Haulles, muitos consideram que elas foram as primeiras a desenvolverem o suntuoso drink de rúcula, mas há controvérsias – o perfil do Instagram do Bar do Haulles foi impulsionado, não pelas escolhas políticas progressistas ou a luta contra o autoritarismo vigente, mas sim pelo Merchandising das duas irmãs, verdadeiras atrações e, desde setembro do ano passado, blogueirinhas com muito estilo que criam tendências.

O príncipe do Tinder: R R J é uma personalidade digital incontestável. Nos últimos três anos ampliou seu alcance nas redes sociais fazendo pequenas intervenções artísticas e criticando os maiores problemas da nossa cidade, por exemplo: falta de ciclovia, a inexistência de grandes livrarias e sebos, a ineficácia do sistema de reciclagem, a falta de uma cultura mais plural que dialogue com as narrativas sobre questões indígenas, as matrizes africanas, o mundo LGBTQIA+, as opressões contra os pobres, as mulheres e moradores de rua. R R J possui 5.374 seguidores no Instagram; 3.456 amigos no Facebook e, 13.915 seguidores no Twitter. Dizem que no mês que vem ele fará uma aparição muito aguardada no canal do amabilíssimo youtuber C M P, uma das grandes estrelas da nossa terra querida, gentil e altruísta. Secretamente, muito secretamente, R R J maltrata gatos (já esfolou cinco, decapitou dois, afogou nove e sufocou um, com as próprias mãos e uma almofada de sua avó), mas isso nunca será descoberto.

O Agroboy machão: Podemos considerar C A R Jr um dos maiores príncipes herdeiros da cidade. Sua ascendência possui uma relação histórica com Jundiahy – até bem pouco atrás a família A R gabava-se por ter sido a primeira na utilização de mão-de-obra indígena, depois na mão-de-obra escravizada e, por fim, ter sido a primeira a acolher a mão-de-obra europeia e molambenta que aqui chegou, muito mais com o propósito racista de branqueamento social do que por questões propriamente trabalhistas. Podemos considerar que a família A R é quase como um clã de quatrocentões jundiahyenses: vez ou outra eles emplacam políticos importantes na região, dizem que na época do regime militar a família A R beneficiou-se muito dos lucros da produção de cal que possuíam na cidade próxima, Caieiras. Não somente os militares, mas também o baixo clero do poder e da ordem truculenta (Polícia Civil e Polícia Militar) requisitavam consideráveis quantias de cal virgem para experimentos até hoje pouco divulgados. C A R Jr nunca foi muito inteligente nas escolas por onde passou, ele também não se interessava pelo cargo dado pelo papai de administrador dos sítios, fazendas e vastas plantações de uvas, todavia, desde os 12 anos é dono não oficial de uma Ford Ranger XL 4×4 3.0 Manual (cabine dupla) 2012, rebaixada, que, à época, saiu pela bagatela de R$ 52.861. C A R Jr acalenta o sonho de ser cantor de sertanejo universitário. Atualmente tem 24.182 seguidores no Instagram, 5.000 amigos no Facebook (a maioria robôs encomendados pelo próprio papai para que ampliassem a fama do filho, que sequer sabe o que é um violão, sequer sabe que as violas brasileiras possuem mais de 100 afinações, sequer sabe as distinções entre odores de fezes de vaca, ou carneiro ou porco, sequer sabe a real importância de Tião Carreiro & Pardinho; Tonico & Tinoco; Zé Carreiro & Carreirinho; Belmonte & Amarai; e Pedro Bento & Zé da Estrada, provavelmente as melhores duplas sertanejas de todos os tempos). C A R Jr namorou B S C por um tempo. A cidade é pequena e por isso acompanhou o relacionamento com olhos de velhota fofoqueira… As amigas de B S C alertaram para a diferença total de personalidades entre ela e seu mais novo namorado; as amigas de B S C deram diversas dicas de como lidar com o temperamento forte do mais novo namorado; e as amigas de B S C foram ao encontro desta quando ela foi internada depois de uma surra que levou do mais novo ex-namorado. C A R Jr não recebeu intimação nem nada, ele segue com sua duplinha sertaneja universitária, mudou-se de Jundiahy, adotou um nome artístico que não citaremos aqui, segue agredindo mulheres à surdina e, evidentemente, ampliando a riqueza da família A R.

A pseudo-artista demissexual: Muita gente acredita que E W I não é uma pessoa, mas sim uma verdadeira fada sensata, ou uma criatura élfica extraída dos textos apócrifos do Senhor dos Anéis. E W I tem blog e vlog codificados onde dá dicas muuuuuuuuito importante às pessoas. E W I divulga seus quadros de aquarela, nanquim, recortes e tinta óleo no Instagram (possui 4.238 seguidores e segue 1.107 perfis), no Facebook (possui 2.048 amigos, não adiciona ninguém da família de sua mãe e segue 707 perfis), no YouTube (ativou as notificações de 6 canais de gastronomia no ano de 2018), no LinkedIn, no Pinterest, no Twitter (possui 15.339 perfis que a seguem como a um profeta que acabou de gestar uma religião)e, agora, no TikTok. Não que seja da minha conta, longe disso, mas E W I passou a chamar mais a atenção para os seus quadros e croquis no exato momento em que, fazendo uso do maravilhosíssimo TikTok, começou a posar com sua linda coleção de biquínis e lingeries. A arte alternativa da cidade de Jundiahy ficou polvorosa, E W I agora prepara dois livros, um de poesia e outro, extremamente metalinguístico, com as fotografias de seus quadros, ambos os livros terão capa com EW I de biquíni, porém desenhada ao estilo mangá – uma verdadeira estratégia de marketing em uma cidade de analfabetos funcionais em todos os extratos sociais, sobretudo nas áreas da educação e cultura.

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