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hildon0909

Nos voos soberanos da ayahuasca

Há uns três janeiros eu me sentia esgotado, poucas coisas me interessavam. Meus amigos me diziam que essa sensação era por conta dos meus projetos, que nunca decolam. Sou escritor e guardo em minha gaveta alguns romances inconclusos que jamais irei publicar. Naqueles dias eu revisava o início de um texto melancólico, cuja história inspirava-se na vida e obra da poeta Anna Cassiopeia que, dias após lançar seu livro, Alquimia Noturna, sofreria assédio de um editor que até hoje publica a fina flor da poesia paulistana, isso fez Cassiopeia largar tudo e ter uma espécie de surto prolongado até que… Bom, não é sobre isso que quero falar, não agora, não aqui.

Anos atrás fui à chácara Morada das Flores e Frutos da deusa Sarasvati, lá, junto a um pequeno grupo, tive uma experiência interessante.

Duas semanas e cinco dias antes eu tinha colocado em prática a dieta que me foi recomendada pelo então aprendiz de Pajé, o Rapha, e sua mãe; a oraculista Régia dos Santos. “Nada de sal, açúcar, pororoca das drogas ou qualquer outro excesso, entendeu?”, disseram-me. “A sagrada medicina é um cerimonial de merecimento, haux, haux”.

Passei os dias das férias dedicando-me aos legumes, verduras e frutas, tentei meditar como fazem os sufis, li trechos da Mitologia dos Orixás e talvez tenha até rezado como se fosse um capuchinho.

Eu queria expandir a consciência para algo místico, desvendar a profundidade através de mim mesmo e em meus desertos de provação, mas de noite me desconcentrava porque sentia sempre aquela fome de louco. Na hora da janta eu imaginava um dogão gorduroso do tiozinho do carrinho de lanches da esquina regado a uísque. Mas resisti.

No tão aguardado sábado cerimonial tomei café; uma maçã. Almocei: outra maçã.

No caminho eu ia pensando que essas coisas de signos até que são verdades porque sou mesmo um teimoso esfomeado que não gosta de mudanças na rotina. Minha mente recordava os melhores almoços que tive – seria esse o delírio por causa de quase três semanas sem uma dose de vinho ou corote? Eu me imaginava num dos círculos de Dante, comendo punhados de barro pelas fuças através da eternidade e acossado pelo cão Cérbero. Alucinações da minha gula.

O ritual ocorreria à meia-noite. Muitas árvores na redondeza, chão sem asfalto e na paisagem a voz do silêncio. Nada de celular para me perturbar (fiz jejum da tecnologia). Eu continuava com fome; lá pelas três da tarde o nosso grupo dividiu um pacotinho de biscoitos de polvilho enquanto juntávamos gravetos para a fogueira consagrada que queimaria ao longo da noite a céu aberto. Éramos sete visitantes desconhecidos uns dos outros até aquele momento, mas trocamos muitas ideias.

Tentei um cochilo numa das redes do quintal, mas estava ansioso.

Então nos reunimos na varanda, já ia despencando a temperatura. A Régia inalou rapé e acendeu dois castiçais de cobre com velas e um fumo de rolo místico, entre preces e recomendações nos disse como proceder e que ela e o filho cuidariam de tudo, de todas e todos. Ficamos em silêncio, a música estava preparada: duas caixas de som potentes conectadas a um sistema de som digital aguardavam serem ligados, aparelhos que contrastavam com a vista árcade que tínhamos daquela parte da Serra do Japi.

Consagramos.

Bebi – e era agro o gosto da ayahuasca.

Vejo que não faz efeito algum e olho para os lados, apenas as duas velas brilham, tudo mais é penumbra. Penso no desperdício de tempo em ter vindo até aqui, atrás de uma experiência doida.

Meus olhos entreabertos, fim da primeira musica.

Que decepção. Percebo que não deve ser nem meia-noite e quinze e lamento o fato de ter que esperar amanhecer para sair sóbrio daquela encrenca. A chácara, ampla, era cercada por barrancos e mais adiante por uma extensa cerca viva que fazia tudo parecer cenário de desova.

Sou ateu por comodismos e Schopenhauer, mas que admite o magnífico das coisas. Um curioso experimentador que se dispõe a compreender aquela coisa toda sobre o tal chá sublime. “Mas agora tenho de segurar a bronca por não ter nenhuma viagem cósmica, baita quebra de expectativa”, penso.

Meus olhos entreabertos, fim da segunda música.

Abro-os, sinto o baque!

Melodia, melodia sem fim… As duas velas que faíscam ali, na minha frente, de repente se tornam uma só e agora elas são só una, num único bailado de serpente. Esqueço meu nome esqueço quem sou esqueço tudo quando e onde, sinto a leveza típica dos delírios. Sussurros começam em meus ouvidos supersensíveis – são vários tons de vozes, vozes de uma só mulher que profere um idioma errático, vozes que atravessam alguma harmonia do oriente médio. Estou eufórico. Sou eufórico. Sempre serei eufórico. Vejo René Descartes despencar direto de um balão capadócio do meio daquelas nuvens. Ele aterrissa, vem e se senta diante de mim, com aquela cabeleira ensebada.

“Salve, salve. querido Benito Di Paula da filosofia”, o saúdo em pensamento. Ele ouve meu fluxo de consciência telepática, fica puto com meu riso e começa a falar de seno, cosseno e os cacetes das tangentes que no eixo x da trigonometria das razões lógicas são elevadas à potência das meditações do eixo y da integral derivativa.

Não entendo porra nenhuma.

Com o maior respeito que um chapado pode ter – e gente chapada pode ser bem respeitosa – vou em direção a Monsieur Descartes – em direção é modo de dizer, estou imóvel-calado e ainda sinto meu corpo inerte, em sigilo. Mas acho que meu espectro, ou a minha alma que se projeta diante de mim, meu eu em forma de sopro, caminha. Doidices não têm como explicar, é preciso saber curti-las. Meu espírito-livre vai até o filósofo francês e na cara de pau começo a apalpar o rosto enrugado do René, em minhas mãos os bigodinhos chavosos e óculos escuros viram ponteiros de relógio, mas não sei que horas são… Penso logo briso; briso logo penso. O tempo começa a diluir neste exato momento porque as batalhas que travamos com o tempo são apenas oscilação ingênua que reduz a vida a fragmentos de experiências que em vão tentamos narrar: seres que pensam sobre tudo o que pode e não pode ser enquanto o relógio caminha implacável e com fôlego assassino.

Descartes deixa minha insensatez, vai embora irritado, abre os braços e sai voando feito João-de-barro desenxabido. De repente me vejo descendo por uma cachoeira em forma de tobogã ou tobogã em forma da cachoeira num parque temático nas cataratas do Iguaçu – talvez seja tudo memória expandida e acumulada de uma ida ao PlayCenter nos anos 90 em que eu, ainda garoto, tive medo e não fui nos brinquedos mais loucos.

Não sei onde sou. As imagens têm o dobro de todas as cores do mundo, parece um sonho que se passa dentro de um filme que se passa dentro de uma bad trip vomitada por unicórnios anárquicos. A música vira um punhado de objetos tridimensionais – posso ver e apalpar os sons em minhas mãos holográficas: as tônicas e semitônicas queimam de amor e as notas em sustenidos são lindas dançarinas reprimidas pelo nó umbilical, já os bemóis assemelham-se às constelações de poetas, artistas, escritores e escritoras com trejeitos neuro atípicos que frequentam botecos da Baixa Augusta.“Vamos gastar nossas economias no próximo litrão”, alguém diz.

Luzes aparecem, têm forma, mas ao mesmo tempo se desmancham, recriam as coisas mais belas e os labirintos de maldade obscura que são compostas e decompostas numa festa louca dentro do circo na minha cabeça que viaja, viaja por entre paisagens, calabouços e abismos.

Deixo para trás uma cidade labiríntica feita de concreto armado em dobraduras de um mapa que é rascunho de outro mapa copiado às pressas por Aleijadinho. Contemplo uma espécie de futuro estranhamente próximo. Um deserto toma conta de tudo, mas na verdade é o famoso saguão do MAD, Museu Amazônico Desértico, que é inaugurado no dia 22 de abril do ano de 2120, às 13h45, horário de Brazyília, capital da Bruzundanga, onde matas sintéticas sob os pés de um boneco de cera enfeitado faz papel dum xamã dos Jupaú porque, no século XXII, os povos que habitavam Bruzundanga antes de ser Bruzundanga foram exterminados, são apenas recordações desbotadas.

Minhas alucinações não são por causa de amanita muscaria colhido bem de manhazinha. Nada daqueles docinhos homeopáticos das raves de Zé Droguinhas ricos que jamais tomam enquadros e nem mesmo as fatias de Panetonha que meu amigo-poeta faz todo natal pra enxergar Papai Noel verdinho.

A visagem (visão & imagem) das galerias do MAD começa a se desmanchar em escamas prateadas que estilhaçam ao som dos uivos longínquos.Eu sei, sim, eu sei, me dizem sempre que ayahuasca é ancestralidade da terra, Pachamama, travessia pelas silhuetas da sagração no reino das deusas.E se eu não volto dessa viagem?

Transpiro, eusou meu suor espesso, transpiro muito, transpiro-me só, soberbo. Dos longos fios da barba de Visconde de Sabugosa descem meu choro, descem meu chorode santo pateta. Um choro infantil de culpa e abandono agora me atravessa.

Minha roupa empapada é a pele do camaleão, sou camaleão, camaleão albino, camaleão caolho, camaleão abismo – um alvo, uma arma branca – camaleão de olhos retortos – cada olho aponta para centenas de realidades. Cada letra que uso nasce do estilete rubro da escrita, estilete enfeitado com meu sangue. Rajadas de folhas cruzamo caminho delirante. São páginas, papiros, papéis, pergaminhos e sedas que vão se acumulando no fundo das retinas. Cada entrelinha que eu li se reconhece órfã de pais vivos, tal como alegria soterrada.

Doce-amarga ayahuasca que me arroja às lembranças: Argentina Baixada Fluminense Paranapiacaba Chile-Atacama Itirapina La Paz-Bolívia Ouro Preto Peru Marília Montevideo Guarulhos-Pimentas São Tomé das Letras Ribeirão Preto Paris Peruíbe Floripa Paraguai Ilha Comprida e outros trechos onde procuro a tudo e a mim mesmo. Travessia é o primado de vida completa, mas soucavo.

Devoro-me a mim mesmo, camaleão canibal, engasgo com meu ego. Vomito-me e sou nojo em reflexos.

Vagalumes de bundinhas lampejantes surgem – “cara”, penso, “duas décadas que não vejo vagalumes, nem em chácaras nem em filmes nem no céu da boca de quem amo”. O futuro agora exterminará tudo e seremos os últimos vagalumes com a merda dos celulares conectados com aplicativos em nossos rabos sincronizados. Ingênuos que creem no progresso. E tudo é feito de vagalumes em mil cores. Os bichinhos se agrupam e de uma fumaça âmbar dum narguilé marroquino extraordinário emerge A Love Supreme com beats de Funk Proibidão. Ao fundo Raul Seixas, Madame Bovary, Fafy Siqueira, Policarpo de Esmirna, Pikachu, Dujeta, Léo Canhoto &Robertinho, Seu Madruga, Sonic, Martha Medeiros, Curupira, Sandy & Júnior, os nóias de Jundiahy que fumam pedra atrás do Gandra, Karol Józef Wojtyła, Charlie Sheen, Harry Potter, Gilka Machado, Willian Blake, Alfredo Bosi, Thomas de Quincey, Máximo, o Confessor, Carmem Miranda, Raimundo Carrero, José Gorostiza, Sérgio Mallandro, Rodolfo II do Sacro Império Romano Germânico, Alfred Hitchcock, Nelson Ned, Gustave Courbet, Aquiles, Helena Blavatsky, Jorge Bem Jor, Madame de Staël, Calígula, Efraim Medina Reyes, Yorick, Aristóteles, Stavogrin, Madame Satã, Artemisia Gentileschi, Costinha, o piadista, Macunaíma, Caravaggio, Hermes e Renato, Idi Amin Dada, George Sand, Roberto Schwarz, Sister Rosetta Tharpe, Werner Herzog, Naomi Campbell, Ho Chi Minh, o Gadareno, Orígenes, Dercy Gonsalves, Michel Foucault, Inês que não é morta, Dionísio, Lily Briscoe, Gabriele D’Annunzio, Osman Lins, Jack Kerouac, Xuxa, Bruce Lee, August Strindberg, Zé da Pedra, Tchekhov, Madre Teresa de Calcutá, Marinho Chagas, Luchino Visconti, Fabricio Estrada, Nikola Tesla, Selma Egrei, Altazor, Baudelaire, Alexander, o catador de papelão do bairro do Ivoturucaia, Nelson Rodrigues, Os Sócrates, o que morreu de cachaça e o que morreu de cicuta, Cliff Burton, Randy Rhoads, Mary Shelley, Marcel Proust, Jaco Pastorius, Conde Vronsky, Cosme & Damião, Cassandra Rios, Boécio, Aladim, ostáretz Aliocha Karamázov, Dorival Caymmi, Sardanápalo, Marilena Chauí, Roberto Piva, Clovis Bornay, Romário, Chapeuzinho Vermelho sem Lobo Mau, Charles Bukowski, Raí, Johann Sebastian Bach, o guardador de rebanhos, Lima Barreto, Dom Sebastião, Hildegarda, Cartola, Anselme Bellegarrigue, a mina da marquinha de Biquíni, Milan Kundera, Parsifal, Mazzaropi, Patati & Patatá e, claro, Juan Pizzaro fazem uma grande saliência místico-psicodélica!

Podem me chamar de poeta Pharmakon – sou o veneno, sou o antídoto – e inauguro a anárquica república !

Mas uma voz me chama e toda a orgia fica estática, os corpos parecem garranchos tridimensionais de Piranesi.

É o Rapha, trajando um poncho andino e um cocar repleto de penas florescentes. Ele sussurra cantos de pajelança e me diz que é hora de tomar a segunda dose de ayahuasca.

Consagro, mas só a metade da segunda dose, efeito imediato! Minhas vísceras são plenas em vigor e bondade.

Pela bendita mescalina de Huxley, é hoje que eu viro o multiverso inteiro!

Deixode lado meu corpo. Transcendo-me e saio dançando “Estou no ritual, haux, haux, acho que é isso, não sei, pode ser, talvez, quem sabe, só sei que estou com três meses de aluguel atrasado”. Passam vultos, devem ser as entidades ou as minhas outras vidas, passadas & presentes & futuras. E se tido for apenas mortandade? Ayahuasca é mãe. Cada momento agora é de pura despersonalização. Uma rebeldia visionária que me faz querer ser poeta, pedinte que querpinga, trappista e rockstars ao mesmo tempo!

Amanhã serei a constelação-mãe que sufocará Andrômeda.

Agora chove e cada uma das gotas são faces sombreadas de todas, absolutamente todas as pessoas com que já esbarrei pelas ruas: vejo algumas, sorrio para poucas, mas nenhuma delas espera ser reconhecida porque seus nomes estão velados como selos do apocalypse. Ao longe, mas vindo até mim, uma pequena faísca que mais se parece com um grão de areia, não, não, é um gato. Um felino escaldado que vem correndo com tração nas quatro patas, mas que cresce, Cresce, CresCE, CRESCE e é agora não mais o gato de outrora porque já é hipopótamo que se agiganta, que figura como divindade.

Imediatamente monto e passo a cavalgar o Hipopótamo Machadiano, é sobre seu dorso que jogo xadrez com a Morte. Entramos numa gruta que é a bocarra de um palhaço, formações rochosas mais antigas que o primeiro eclipse. Estalactites e estalagmites ancestrais como as sandálias dePandora.

Sou demente incorrigível, procuro sempre a sensação limite para provar algo que ainda não entendo. Começo a perder de vez o rumo, perguntas aparecem supersônicas na minha cabeça: a ayahuasca é a matrix? Será que eu sou apenas um pé de fruta-do-conde em alguma quiçaça de mato ao sudoeste de Minas Gerais num dia de ventos? Será que Sócrates e Platão fumaram erva juntos?Meu país existe?Que merda é essa desolação e melancolia de cinco séculos que devastou povos inteiros e que é cantada pela boca dos medíocres que os quer extintos? A morte é algo real? A realidade é real? Eu existo? Eu? Será mesmo que aos treze anos de idade eu caí de cavalo e quebrei o braço? Será que eu era o cavalo? Será que a tatuagem que ainda não fiz já está desenhada mesmo antes de ser esboçada? O tempo e o espaço existem? Será que o verdadeiro céu se chama AbyaYala?

Egrégora.

O chocalhar do vulcão: uma força intrusa. Meu corpo está solto, não há tensões – mas eu sei que é há calmaria e tempestade. Sou força, sou fúria de poros abertos,      Uma dor sagrada, abraço meus traumas, revisito a sucessão de fracassos que sou. A vida é sempre uma tragédia sensabor.

Meu choro é meu irmão de jornada e eu pude contemplar minhas dores depois dessas de consagrar a ayahuasca cósmica dentro de mim porque isso é degustação da divindade, é união mística com a natureza. Sinto como um espatifar de ossos. Meu coração dispara porque a voz dos séculos vem até mim e sinto que ela está prestes a me revelar algo além das miragens e crenças, algo que transcende o cientificismo oco e todas as doutrinas, religiões e seitas. A voz vai comunicar-me as simples verdades solenes e muito simples que instigaram sábios e sábias de todas as eras possíveis, aquela derradeira dúvida que atormenta toda gente desde o nascimento até a morte da humanidade. Estrondo. Cantos xamânicos rondam meus ouvidos e ouço:

–Oricantalabaxuriandalabai, Decantoráriakarabashaia e Shalababaiadarioxablai.

A voz falou comigo em línguas estranhas até o sol despontar pela manhã, não me cobrou nada pelos conhecimentos compartilhados.

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