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hildon1410

O surgimento do Zé Brochinha

– Alô.

– Henrique, [glub], é você?

– Sim, quem fala?

– Pô, cara, aqui é o Guilherme Braga Júnior, o Braguinha, não se lembra de mim?

O Braguinha é um dos poucos amigos que eu e o Manuel Oliveira temos que acredita, sem sequer ter lido um livro sobre, que o Churchill e a Thatcher eram sábios iluminados, incontestáveis. De direita? Não, o Braguinha é um verdadeiro reacionário seboso. Nas mesas de boteco ele costuma tirar sarro da gente por apoiarmos a taxação das grandes fortunas e por xingarmos nossos patrões. Mas, quando enchia a cara, especialmente depois de festas com seus amigos que se achavam europeus legítimos perdidos na América Latina, era pra gente que ele vinha se queixar das desilusões amorosas.

– Meu grande amigo – ele disse ao telefone, bêbado que só – eu considero você pra caramba*.

– Pô, valeu mesmo Braguinha, mas são duas e meia da manhã.

– Não tem problema, bebi todas – ele gritou – e sabe o que é melhor?

– Não, diga.

– Ainda tô bebendo! [gargalhadas] – do outro lado da linha.

Fato: o Braguinha sempre foi mais simpático bêbado. Sóbrio, vive se exibindo. Fala das viagens que planeja; do apartamento que iria comprar, mas ainda não teve tempo; das mulheres que dão mole pra ele; e do carro novo sempre almeja. Só inverdades. Age como herdeiro, mas no mundo real é assalariado (o pai, que era cheio dos moralismos, foi dono de um império de farmácias aqui na cidade – não direi o nome da rede. Fujo de polêmicas). Apesar disso, tudo veio abaixo quando descobriram que: 1) era fachada pra lavar dinheiro e calibrar com anabolizantes garotos magrelos que queriam ter peitinho de pombo; e 2) quando o Braga pai, que ia às missas com broche da TFP, foi pego não com uma, mas as duas mãos, no badalo da Tiffany Giulianna (uma trans famosa do bairro “famoso”). Foi um terremoto na vida da família e até hoje o Guilherme não revela o paradeiro do pai, há anos divorciado.

– Henrique, eu tenho que falar uma coisa, me escuta aí. Sabe por que tô bebendo?

“Xiii… lá vem”, pensei. Todo bêbado quer uma sessão grátis de desabafo. Se uísque fosse terapia eu me tornaria um ótimo psicanalista.

– Eu imagino. Você deve ter saído da balada com os amigos, tudo bem, amanhã a gente fala e boa…

– Não, não, cara, meu único amigo é você [iiiiiic] – ele cortou, dando o soluço mais forte que eu já ouvi.

– Que nada, vai dormir Braguinha – eu disse, tentando me livrar do mala sem alças.

– Relaxa, quero falar, eu vô contá!

Homem bêbado é tudo igual, só fala sobre futebol, (falta de) dinheiro e (falta de) mulher. Os que não gostam de futebol são menos falastrões, mas, por isso, bebem mais.

– Eu tava apaixonado. É sério, Henrique. Eu tava apaixonado!

– Entendo.

Aquele era um espetáculo recorrente do Braguinha. Ele enchia a cara depois de uma desilusão amorosa. Certa vez confessou que, apesar de ser ultraconservador na política, nos costumes e na economia, só se apaixonava por mulheres de esquerda. Ele adora as garotas com postura e que escrevem textões inflamados, e válidos, sobre sororidade, patriarcado, machismo, feminicídio, feminismo, lugar de fala, etc. O cara tinha tara pela oposição política. Costumava dizer coisas toscas, afirmava que da cintura pra cima era Trump, mas Che Guevara do umbigo pra baixo.

Daí, quando as mulheres percebiam que ele não passava de embuste, um típico engodo falocêntrico, e era até rápida essa percepção, davam um belíssimo pé no traseirinho dele. Depois que tudo naufragava, nosso querido amigo bebia todas, ligava para um dos camaradas à esquerda, às vezes aparecia em frente ao portão das nossas casas, independentemente do horário.

– Eu amo aquela garota, aquela deusa feminista, tá entendendo? – ele disse, já esboçando o choro.

– Eu compreendo você – respondi enquanto me levantava da cama.

Falamos um pouco, dei conselhos dentro do que eu pude, claro. Disse a ele para procurar ouvir as mulheres de forma sincera e mudar as atitudes escrotas.

– Você tá certo, Vitarelli. Entendi. Vou ficar mais atento, mas o problema não é nem esse.

– Qual é?

– Promete que não vai falar pra ninguém? – ele me perguntou, num tom sério, parecia que a bebida havia evaporado.

– Você me conhece, diga lá – eu disse firme.

– Brochei.

Segundos de silêncio.

Sim, ele estava fragilizado. É bem verdade que a sociedade exige padrão de rendimento dos homens, que a masculinidade é tóxica, que existem esquerdomachos e direitomachos e tudo mais, só que eu também não estava pra ouvir sobre desempenho sexual dos outros, ainda mais do Braguinha.

– Cara, relaxa, isso acontece com todo mundo. Vida que segue.

– Já aconteceu com você, Henrique?

– Amigo, não desvie do foco, você é assunto – eu disse.

– É mesmo. Mas estou abatido, não sei o que fazer – ele disse, quase sóbrio.

– Já sei.

– Me diz aí, Vitarelli. O que? – ele me perguntou animado.

– Supera e diz pra você mesmo que a culpa disso tudo é do PT.

PS: Não sei se naquela madrugada o Braguinha ficou mais meu amigo ou passou a me odiar. Nós nos despedimos. Depois de um tempo vieram os momentos eufóricos das eleições, ele estava sorridente por demais e parecia que seu time havia ganhado a Libertadores. Numa das conversas de bar ele retornou ao papel de machão reacionário, disparando palestras e expectativas (um tanto vagas). No fim da noite ele tentou fazer piadas comigo e com o Manuel Oliveira. Eu apenas sorri e disse:

– Relaxe, a culpa disso tudo é do PT – então me virei na direção dele e sussurrei: – Não é mesmo, Zé Brochinha?

Ele arregalou os olhos, deve ter engolido uma saliva seca. Fechou a cara. Foi embora sem pagar a parte dele na conta. O apelido continua. Já a amizade…

Coisas que ocorrem de 2018 pra cá.

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One comment

  1. Ah, que esse escrito nas salas dos colegiais dá um ótimo barulho. Já que não podemos evitar barulhos, que seja com bons pretextos. Esse barulho aqui, será “papo cabeça” nas próximos porres!!

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