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Os narguileiros de Jundy City

Passei os primeiros dias do ano injuriado com alguns problemas que nem quero dizer aqui, não vem ao caso, ainda… Este ano de 2021 pelo visto não dará tréguas à minha paciência e, claro, será um período de desafios hercúleos para o meu fígado, sempre etílico.

Eu estava jogado no sofá feito gato castrado que vagabundeia num canto do armazém, o celular tocou e logo vi que o MK tinha, finalmente, colocado créditos no celular e largado mão – só por uns dias – das chamadas a cobrar.

– Cara, como está?

– Grandes dívidas & poucos trocados – respondi.

– Bom, estou aqui pelo centro, bora trocar ideia? – ele disse.

Meio que por milagre eu ainda tinha cerveja na geladeira. Engatamos na conversa logo quando ele chegou. Os ponteiros do relógio, sem pilhas, preso à parede da cozinha marcavam, perpétuos, as mesmas 4 horas e 20 minutinhos. Da tarde, neste caso.

– Então, eu passei na tatuadora, para retocar o desenho da máquina de escrever que fiz antes do natal, estava aqui perto e resolvi encher a cara – disse MK e estendeu o braço direito, em carne viva, com o desenho vintage.

– Tranquilo, vamos tomar umas muitas, vou pegar também o cachimbo sartreriano – eu disse.

– Demorou.

As minhas conversas com o MK seguem, com algumas exceções, uma espécie de cartilha alucinada, mas já estabelecida. Sempre começamos falando das correrias da semana; depois falamos dos aumentos cavalares dos preços de quase todas as coisas, sobretudo as que não consumimos porque desde sempre o dinheiro é curto; e passamos pelas lamentações diante dessa eterna quarentena que nos restringiu ao pagamento de boletos, sempre atrasados. Depois dessas amenidades começamos a xingar o mundo sem dó, fazemos bem o teatrinho de poetas (que se acreditam) malditos numa cidade que se acredita respeitável.

Não ficamos bêbados de modo tão fácil, mas, de qualquer forma, chega uma hora em que a rebeldia e as críticas parecem transparecer a embriaguez. Mas, sendo franco, é ótimo blasfemar e tirar um sarro do cotidiano político e de si mesmo, não é?

Falávamos das fotos cômicas que circulavam pelas redes sociais de uma galera barbudinha, metida à machona que, com gritos e urros, posava numa espécie de flasch mob ou cena de filme B de Hollywood. A foto de um dos fulanos trajando uma espécie de casaco de peles da titia-avó era o centro do debate, debatíamos o golpe home office dos golpistas contra os golpistas, tudo coisa de estadunidense:

– Pra mim o maluco parece uma gazela. – disse o MK.

– Que nada, vai ver é um tapete improvisado.

– Tem chifres, é alguma fantasia.

– Bom, vai ver é folia de reis, só que de gringo.

– Sim, um carnaval, ou Micareta no Capitólio, hahaha! – disse o MK e depois tossiu

– A galera falou que ele estava fantasiado de Viking, haha.

– Sim, mas com o rosto patriótico pintado, no glamour, bem blogueirinha!.

– Seria um Viking texano, do deserto?

–Está mais pra lenhador-crossfiteiro, só que ali tem coisa enrustida, certeza.

– O que vai ter de gente aqui no país querendo imitar a peripécia

– Sim, ano que vem será horrível, certeza.

Já havíamos perdido a noção da hora, quando meu celular tocou novamente:

– Pô, e aí L., que manda? – eu perguntei, ao reconhecer a voz de um amigo de longa data.

– Aqui tudo certo, e por aí, como está, Henrique Vitarelli?

– Mais liso que quiabo no azeite, mas tomando umas cervejinhas.

– Passo aí em 15 minutos, daí vamos num lugar muito louco!

– Cara, eu não sei não, um amigo meu está aqui.

– Ele está bêbado?

– Calma aí. MK, você está bêbado?

– Um pouco.

– Então, L. ele está bêbado, um pouco – eu respondi com voz debochada.

– Pô, legal, então ele vai junto.

O L. sempre tem ideias mirabolantes, sobretudo quando entediado, nos auges dos seus momentos de aborrecimento ele dá sempre uma reviravolta e inventa algo, liga para os amigos e convida para passeios que nem sempre são agradáveis, mas, para as justificativas que ele cria, tudo acaba bem.

A empolgação era tanta que o meu motorizado amigo L, quando apareceu, subiu a calçada com os dois pneus esquerdos. Ambiguidade pura. Estava sorridente e olhou para as nossas caras, também sorríamos.

– É perto, vamos, entrem no carro, é numa das travessas da Rua do Retiro, vocês vão curtir!

Chegamos a uma espécie de sobrado improvisado, onde parecia haver um princípio de incêndio. Uma Narguilaria, mas não uma narguilaria qualquer. Era A Narguilaria Cult de Jundy City.

– É aqui, olha esse visual, vocês curtiram? – disse o entusiasmado L.

Olhei para o MK. E, talvez por telepatia, pensamos o quão furado seria o rolê.

Pegamos os lugares encostados em paredes descascadas, um abafamento insuportável e aquele cheiro de pinho misturado com incenso, uma das dez coisas que são minha Kriptonita, um dos meus calcanhares, não que eu seja o Super-Homem ou o Aquiles.

Tive vontade de espirrar. Espirrei, muitas vezes. Alguém do outro lado gritou;

– Sai, sai, demônio da COVID!

O L. conhecia praticamente todos os caras do balcão e a galera do local, ele estava animadíssimo em trazer dois figurões, o MK e eu, já um pouco velhos e anacrônicos para esses círculos.

– Qual essência você que fumar hoje, Vitarelli? – disse L.

– Tabaco. – eu disse.

– Pô, mas tabaco é de cigarro, tem que escolher uma essência.

– Então vou ter que fumar perfume, isso? – eu retruquei, muito piadista.

–Hahahaha – cortou MK num jeito já alucinado.

L nos explicou todos os procedimentos específicos para uma boa degustação gourmet do narguilé – a gente já conhecia. Falava com calma sobre a temperatura da água, do carvão e do ambiente; ele nos ensinou – nós dois, velhos bocas de chaminé – a como tragar com estilo; e dava detalhes de como comprar um narguilé e fazer harmonizações com vinhos e queijos.

– E cigarro? Pode fumar aqui.

– Não.

– Charutos, eles vendem?

– Não.

– Cachimbos?

– Não.

– Paieiro

– Ah, Henrique, você é o Mazzaropi do rolê agora? Paiero?

– Não, paieiro.

– Tá, tanto faz. Paieiro ou paiero.

– Então, L. é que paieiro é cigarro, mas paiero é gíria pra mentiroso – disse MK, que já estava com outro copão de cerveja pela metade.

– Pô, pensei que vocês iam gostar – disse o L., já um pouco bravo com a nossa implicância.

–E Djamba, eles vendem? – eu disse e logo dei um espirro.

–Saúde.

–Não… bem, não sei, mas acho que não. Mas nada disso é natural, Vitarelli!

– Ah, entendi, então quer dizer que pode ficar dentro da churrasqueira, fumando pedaço de sabonete da Jequiti, mas um cigarro, um único cigarrinho, não pode fumar?

– É que a essência é mais natural – disse L, melancólico.

– E quais essências têm?

–Quais vocês querem?

– Ê, criatura, fala pra gente quais as que têm. – eu disse, fingindo estar bravo.

– Vejam aí, no cardápio. – retrucou L.

E então o MK e eu explodimos em risadas, aquela ideia de cardápio para fumódromo de narguilés era a coisa mais cômica da noite. Gargalhamos, meio que sem motivos para tanto, na cara de L.

– Assim você ofende meus manos do rolê.

– Caramba, desculpe – disse MK.

– Verdade, você tem razão MK, também peço desculpas – eu disse.

–Valeu por respeitar a família narguileira, os nargas agradecem! – afirmou L.

–Nargas?

–Nargas? ahahahAHAHAH. Família narguileira, aí já é demais!

– Ah, Henrique e MK, vão à merda, vocês estão desatualizados…

 

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