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Sobre a arte da vagabundagem do bem

A maioria das pessoas acredita, de forma ingênua, que ser vagabundo não dá trabalho. Puro engano e crendice populares. Não há esforço maior do que a vagabundagem – e, arrisco-me a dizer, jamais haverá empreitada mais desgastante que essa sobre o planeta Terra.

Ser vagabundo, em primeiríssimo lugar, é assumir um compromisso ético e carregar uma conduta, quase aristotélica, de respeito às formas de ócio, sobretudo o recreativo. Pensemos: em uma sociedade cada vez mais dominada pelo consumismo e pela correria do cotidiano, atolada em uma mentalidade de rebanho e asfixiada por horríveis condições de trabalho, desigualdade social e, infelizmente, reformas trabalhistas que oprimem os pobres e faz lucrar os rentistas, a vagabundagem é, sem dúvida, algo que destoa e imprime um ritmo único aos acontecimentos. É a vagabundagem um grito de resistência, mas um grito tranquilo que almeja uma condição de bem-estar às pessoas mais desamparadas.

Bem sabemos que a humanidade se perdeu totalmente quando o ócio (aquele vasto e benfazejo momento de lazer e relaxamento físico e mental) passou a ser desprezado e, pior: negado. Desde quando os negócios passaram a tomar conta do mundo todo o charme da vida contemplativa evaporou-se.

Ser vagabundo, em segundo lugar, é exercer um estado de paciência com as pessoas, mas, sobretudo, consigo mesmo. O vagabundo do bem (categoria que eu me enquadro, com muito gosto e orgulho) é aquela figura típica que não quer esforços desproporcionais, ou melhor: sabe medir seus esforços; não quer conflitos grandes ou mínimos e que faz da preguiça um argumento sincero, recorrente e sempre honesto.

Ser um exímio vagabundo do bem é saber o quanto se deve trabalhar para adquirir o tempo livre.

Em terceiro lugar, ser ou estar vagabundo consiste, antes de qualquer coisa, num dom inato para a economia. Quem (assim como eu) é versado nas artes do sossego coerente, ou nas técnicas mais avançadas para evitar obrigações, sabe que tempo não é dinheiro, nada disso. Tempo é tempo, simples assim. Cada minuto do vagabundo é precioso, tem a medida exata da lassidão e serve para que ele veja, com olhos tranquilos, a ampulheta da vida que está sempre a exercitar suas artimanhas.

E por fim, correndo o risco de estender muito esse assunto, para alguém que queira vagabundear com garbo, com estilo e uma dedicação diária, duas máximas são fundamentais: 1) a lei suprema do mínimo esforço e 2) a paixão pelo princípio do repouso – um princípio quase newtoniano, por assim dizer.

Importante: em nenhum momento a vagabundagem tratada aqui diz respeito às atitudes que regem predominantemente a caricata vida pública das classes políticas ao redor do mundo e, sobretudo, em nosso tão vilipendiado país. Esta vagabundagem carreirista não é nem um pouco sadia, não tem compromisso ético e muito menos leva em conta o bem-estar alheio.

Mais do que eu citei é exagero, podem ter certeza.

Posto isso, deixemos o assunto por aqui para que a emenda não saia pior do que o soneto e, claro, para que eu – e vocês, leitores e leitoras, depois de terem degustado esse texto enxuto, possam, na medida do possível, exercitem um pinguinho que seja da arte da vagabundagem do bem.

Sugiro uma rede, um suquinho de laranja e uma almofada confortável.

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