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Tiozinho do pavê, um quase filósofo

Confesso que fiquei meio assustado com as repercussões que meu texto intitulado: Eu, o choach do fracasso bem-sucedido. Recebi muitas mensagens, até uns xingos de amigos coachs que eu, até antes da publicação, ainda possuía. Sendo assim decidi falar de coisas mais amenas e não satirizar e muito menos criar polêmicas.

Além disso, de agora em diante eu, Henrique Vitarelli de Moura, parei de beber, parei de fumar e parei com a esbórnia. Só não parei de mentir – e isso é uma verdade sincera, ou não. Enfim, vamos lá leitoras, leitores e leitorxs.

Fui a um churrasco na casa do meu amigo Pedro Romano Rodrigues um tempo atrás (bem antes da pandemia) e lá revi muitos amigos e, claro, fiz novas inimizades.

Depois de umas cervejas eu já estava pronto para atacar a sobremesa: um delicioso e atraente pavê com chocolate meio amargo.

– Ahahaha. É pavê, ou pra comê? – exclamou o tio do Pedro, que eu conhecia de vista.

– Nossa, uma boa piada – respondi. Tão nova quanto andar pra frente, eu pensei.

O tio do Pedro é um sujeito difuso, que se aposentou muito jovem num trabalho que ele disse ter exercido com muita competência técnica ao longo da curta carreira profissional. Além disso, ele ostenta uma cara de janota, certo olhar de velhaco. Ama fazer piadas e comentários, como se o mundo houvesse parado naquilo que ele julga ter sido os melhores tempos: sua juventude nos anos 60 e 70 do século passado.

– Fala rapaz, qual é mesmo o seu nome?

– Henrique – eu disse, enquanto pegava minha porção do doce para reequilibrar com glicose o meu corpo amaciado pelo álcool.

– Você é amigo do Pedro, não é? Ele me disse que você é filósofo. Gosto de filosofia e dessas coisas aí.

A primeira colherada do doce bateu no meu bucho quase cheio.  Senti que a conversa ia ser mais pesada que a gordura da costela. O tiozinho do pavê adora falar sobre coisas que não sabe e, principalmente, discordar sobre as coisas que jamais estudou. De uns tempos pra cá tem sido um cacoete do tiozinho do pavê andar vidrado no celular, sempre espalhando aquelas frases e imagens de motivação ou certas notícias mais falsas que notas de três reais. Aliás, o celular do tiozinho do pavê parecia vir com conhecimentos que o tornava especialista não só em filosofia, mas também em política, jornalismo, ciência, religiões, economia, geografia e tudo mais que lhe viesse à mente.

Eu só queria aproveitar aquela tarde, mas notei que o tiozinho do pavê queria, acima de tudo, acima de todos, atenção, muitos paparicos e, claro, uma pequena disputa sobre conhecimentos gerais, que ele geralmente desconhece.

– Sim, fiz filosofia e também história, mas hoje é dia de festa, não quero que o rumo da prosa vire congresso universitário e…

– Que é isso, que é isso. Adoro filosofia – ele disse e me deu tapinhas nas costas – O que eu mais gosto em filosofia é que ninguém confirma nada, todo mundo discorda, nem é ciência, ahahahaha, e a certeza não existe. – continuou enquanto gargalhava fiapos de carne e nacos de sebo de linguiça.

Ai, essa foi dolorida, pensei. Refleti mil vezes se responderia correndo o risco de ter que aguentar um debate mais firme com o tiozinho do pavê, mesmo percebendo que o tiozinho do pavê não sabe o que é debate.

– Eu gosto daquilo que falou aquele Pondé, no tocante a questão, aquilo lá, de geração mimimi, eu achei fantástico, um gênio – ele disparou – até comprei um livro do sujeito, já estou quase trigésima página disso daí.

Poxa, eu nunca imaginei que os livros feitos para saguão de aeroportos do Pondé pudessem ser tão extensos. Naquele momento eu via todas as aulas da minha graduação sendo medidas pelas frases do Tiozinho do pavê. Ele começou a descarrilhar um monte de assuntos, falou que era contra mamata dos índios, dos negros, das mulheres, contra os boiolas e as sapatonas etc. Todas as frases dele começavam iguais, exatamente assim: “não é que eu seja racista, mas…”; ou “não é que eu seja machista, mas…”. Faltou dizer uma: “não é que eu seja idiota, mas sou.”.

– Então, pelo visto, você é a favor só do que você acha certo, só concorda com você mesmo – eu disse.

– Positivo e operante. Isso, você me entendeu, ahahaahahaha, cara esperto. Viu só, eu sou um quase filósofo, logo logo eu viro filósofo assim como você nisso daí, não é verdade?

– Sim, nem precisa de diploma – eu disse olhando para os lados enquanto secava mais um copo de cerveja.

– Diploma? Mas eu escutei outro filósofo que é filósofo e não tem diploma para ser filósofo – ele disse. Senti que o tiozinho do pavê, com vasto vocabulário de 150 palavras, gostava de falar: “filósofo”, para ele era como ter um carrinho elétrico novo, mas, evidentemente, sem nenhuma pilha.

– Henrique, conhece aquele filósofo, o nome me escapou agora, está na ponta da língua isso daí… aquele que capricha nos palavrões, ahahaha, e diz que ninguém é como ele, que ninguém presta, poxa, ele só fala coisas que eu concordo e…

Três vezes mais bêbado que eu, o tiozinho do pavê estava mais pra pudim de pinga em sua camiseta verde-amarela desbotada e apertadíssima.

– Sim, eu sei quem é, mas não se esforce para lembrar o nome dele, ninguém que se preza lembra.

– Poxa, Henrique, aquele filósofo, assim que eu lembrar lhe aviso nisso daí.

– Combinado, vou tomar outras cervejas enquanto você pensa nisso daí – eu disse.

– Taokey, Taokey.

PS: Naquela tarde eu consegui driblar o tiozinho do pavê, um verdadeiro chatólogo com péssimo gosto e de muito mau hálito. Mas conheci a decorativa esposa dele, a tiazinha dos catálogos de potes e perfumes; dois dos seus filhos: um era mini-chatólogo metido a cantor sertanejo, um desses agroboys que nunca viram bosta de vaca e andam em caminhonetes de cabine dupla; e, por fim, a prima do Pedro, uma linda e mimada que se dizia especialista em signos – consegui o telefone dela, logo, bem logo trarei mais histórias disso daí.

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