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Um corno no divã da Barbearia C.

Fazia tempo que eu vinha me sentindo triste e sem expectativas de vida, num desânimo gigantesco e mais ignorado que cantor de churrascaria no fim do mês. Decidi que precisava procurar ajuda profissional, algum tratamento sério onde eu pudesse expressar o que estava passando, poder espairecer os sentimentos e as ideias e não deixar-me abater de vez pela angústia e a solidão.

Fui à Barbearia C., do meu amigo V., o Sábio.

Bato à porta, entro.

– Boa tarde, meu caro Vitarelli, há dois clientes, você aguarda um pouco?

– Sim, sem problemas – eu disse.

As barbearias de longa data passaram a ser substituídas por espaços cada vez mais cafonas e postiços, onde são feitos cortes de barbas e cabelos numa pressa chata, maquinal. Nesses locais as conversas-fiadas, as trocas de gentis ofensas e toda a resenha acabam, infelizmente, deixadas de lado. Mas não é o caso do estabelecimento do V, o cara se desdobra sozinho pra cuidar da clientela, fazer um trabalho exemplar e dar um jeito na aparência dos marmanjos desprovidos de beleza, assim como eu.

Mas o melhor do atendimento é a conversa, uma verdadeira terapia.

Eu já falei para o V. colocar à porta um cartaz assim:

BARBEARIA C:
CORTEOS PÊLOS EASHISTÓRIAS CABELUDAS

Que todo mérito seja dado a Freud (ao pai Sigmund e à filha, Anna), Nise da Silveira, Lacan, Carl Jung, Maria Rita Kehl, Winnicott e tantas outras figuras geniais que investigaram e investigam os recantos sombrios da mente humana, mas vocês, leitores e leitoras, precisam conhecer o V e contemplarem como ele refinou as artes da psicologia e da psicanálise! E nem tem como contrariar muita as palavras dele, pois é ele o cara com a navalha na mão.

Eu era o terceiro da fila, quando entrei o papo havia migrado da tabela do campeonato para as tretas dos relacionamentos. Abri bem os ouvidos.

– Vocês não vão acreditar, eu mesmo não acredito! – disse o homem que seria barbeado naquele instante.

– Pode falar; o que contamos aqui, óbvio, morre aqui. – disse um rapaz de rosto magro, que também aguardava sua vez, sentado três cadeiras distantes da minha.

– Exatamente. – disse o V.

– Acho que minha mulher está me chifrando.

A terapia começa. O método geralmente é simples: primeiro nós dizemos amenidades sobre futebol, política, família ou outras coisas do tipo. Em seguida, quem está na cadeira para receber o corte sempre dá um ou outro suspiro meio entediado para, enfim, lançar ao ar algum palavrão ou problema.

É a deixa, vai vir assunto cascudo. Há sempre uma pausa majestosa do V, ele começa os ritos de barbeiro, ouve cada palavra, reflete e dialoga. (É óbvio que quando só há um barbeado todo o procedimento é mais intimista, cheio dos detalhes existenciais).

Além de talento com as lâminas, o V tem ótimo ouvido.

O rapaz de rosto magro imediatamente ergueu as sobrancelhas e disse:

–Vish, traição é difícil, caramba.

– Bom, ainda não tenho certeza, mas… bem, não sei… o problema é… o bendito do sofá. – disse o corno hipotético.

Fiquei atento. Naquela tarde, meu amigo V estava mais sério e eu sei que ele sabe muitas dessas histórias. Aliás, se ele escrevesse e publicasse tudo o que já ouviu naquele divã improvisado nem os documentos da CIA, nem os arquivos secretos do Vaticano e muito menos a dona Z. da Silva, uma antiga vizinha fofoqueira da minha infância, soltariam tantas informações sigilosas – e comprometedoras.

– O problema maior não é ser corno, mas a síndrome cornística – eu disse com todo respeito, claro.

– Nem me fale, me dá até agonia. Semana passada…, bom, quando entrei em casa, o sofá estava todo desmantelado.

– O sofá é novo?

– Novinho, foi presente.

– De casamento?

– Pior.

– Pior?

– Sim, presente de casamento, da sogra. Horrível.

– A sogra?

– Também, mas eu estava falando da estampa.

O caso clínico mostrou-se ainda mais complexo, parecia história do Nelson Rodrigues. Tinha o possível problema da traição com indícios; a neurose projetada sobre a imagem do sofá do provável traído e, pra piorar, umas pitadas de complexo de Édipo e o clichê cultural de inimizades com a mãe da esposa: o famoso complexo da Língua-de Sogra (É uma teoria feita pelo V, um dia, podem anotar aí, eu explicarei do que se trata).

Nosso barbeiro mantinha-se calado.

– Não posso acreditar que ela esteja me traindo, vai ver é coisa da minha cabeça.

Mas que trocadilho infeliz, o corte da barba estava no início e a sessão de psicanálise já estava no clímax. Era o estágio de negação.

– Bom, se ela está me traindo é por algum motivo, mas tinha que ser justo naquele maldito sofá?– disse ele, com espuma por toda cara, feito um Papai Noel inconsolável.

– Será que ela não recebeu as amigas em casa, depois do trabalho.

– Não creio.

– Talvez ela estivesse mudando o lugar dos móveis.

– Minha mulher detesta mudanças.

– Entendo.

Nos arremates da navalha do V notei que aquele homem sentia-se fragilizado, estava com uma paranoia colossal. O que parecia estranho era o fato de V não ter falado nada até então, nem um conselho ou sugestão, nada, nadinha. Das duas uma, pensei, ou o V está insensível por não gostar do cliente, ou é ele, o próprio V, o Pé-de-Pano-Talarico, só faltava essa.

– Não sei não…

– Bom, mas você está preocupado demais, fale com ela.

– Se eu confirmar a traição nem sei o que faço.

Desenhava-se ali um verdadeiro laboratório para barraco seguido de crime passional. Não sei até que ponto o cara de honra arranhada estava ficando estimulado com a navalha e tendo ideias hediondas. A coisa toda, claro, não precisa ser resolvida na violência.

E então, já um pouco sem fôlego, o marido ofendido cerrou o punho e disse:

– Acabo com a vida dela, do amante e depois me jogo de cima da Avenida Jundiaí.

Piorou de vez, o sujeito era pura raiva. V, compenetrado, cuidava do cliente.

– Se ela me traiu, bem… isso me dá o direito de trair também, chifre trocado dói menos, não é mesmo?

Claro que nós concordamos. Contrariá-lo não estava nos planos. Ele já demonstrava a triste barganha dos ombros curvados, estava deprimido.

V, sem dizer palavra, aproximou-se com o espelho na mão para que o cliente visse o resultado.

– Pô, não vai me falar nada, V?

– É verdade, o que você acha disso tudo, Sábio? – disse o rapaz de rosto magro.

V fez uma pausa, observou a parede num ponto fixo e imaginário, ponderou o quiproquó e, sério, virou-se para o possível corno e disse:

– Primeiramente: venda o sofá.

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