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Um escritor idiota

Bom, vamos lá, imaginem só a situação.

No último final de semana, no sábado, eu estava curvado sobre o teclado e com a testa encostada na tela do computador (tenho olhos frágeis, péssima visão e é por isso que escrevo com os outros quatro sentidos e, claro, à base de um bom etílico). O quarto exalava fumaça de tabaco vagabundo, cinco estantes de livros muito bem desorganizadas e sobre a escrivaninha montes de papéis rabiscados e livros entreabertos. Pela janela entravam roucos sons de carros apressados.

Bom, eu me dedicava ao vício solitário da escrita, a mente vidrada, pensando no desfecho de um romance magnífico, algo que me tornaria o maior escritor da minha rua, a infame Bernardino de Campos. O enredo, todo ele, se compunha quase sozinho na minha cabeça. Uma obra de encantos épicos, capaz de sacudir as frágeis estruturas da literatura brasileira contemporânea e, assim, colocar a pequena Jundiaí na rota literária nacional, depois latino-americana e mundial, ou, pelo menos, ocidental.

Súbito.

Ouvi quatro batidas na porta! Sabe aquele famoso “tan-tan-tan-tãããn”, do Beethoven? Sim, igual.

Quem me procurava era o locatário do sobradinho verde-água, levemente alterado por conta dessas miudezas da vida cotidiana: o aluguel.

Desci. Nem bem abri a porta.

– Olá, bom dia, vim cobrar os atrasados.

– Olá, senhor “F”. Bom dia, como vão as coisas?

– Indo.

– Que ótimo.

– Sim. E o aluguel?

Tenso. Interrompi as ideias quando estava prestes a iniciar o fim, o último parágrafo, de uma narrativa poderosíssima, charmosa e galante. Um livro que teria mais de seiscentas e vinte páginas, que arrebataria leitores e leitoras e que me tornaria não rico, mas bem de vida. Só que tudo empacou. O senhor “F” é um aposentado já bem vivido, com ótimas relações na cidade (coisas do jogo do bicho) e que arrebatou vários ramos do comércio, mas agora vivia dos incontáveis frutos de sua especulação imobiliária (um siciliano de olhos mouriscos – ou o inverso). Parado no umbral de sua propriedade ele espera não um, nem dois, mais três dos meus aluguéis que, por mero descuido ou falta de tempo, eu ainda não havia pagado.

Argumentei:

– Tenha paciência, prometo que este mês acerto.

– Ouvi o mesmo no mês passado, senhor Henrique Vitarelli.

– Mas este mês é diferente, garanto – eu disse.

– Verdade, é um mês de 30 dias, apenas – ele retrucou.

Exatamente, seu explorador imobiliário, maldito. Muquirana senhor “F”, filho de uma pura mãe, eu pensei. É nessas horas que meu sangue ferve e me chegam ao pensamento todas as lutas históricas do operariado (as batalhas que não empreendi, mas que honro) por um pouco de paz e qualidade de moradia, saúde, emprego, dignas relações trabalhistas, educação, transporte, lazer, cultura, segurança e, claro, amor, amizade e uma cervejinha. Mas, como de costume, guardei o fogo pra um possível lampejo de criatividade literária (ou dois murros na parede e dez xingamentos) depois que eu fechasse a porta.

– Qual é sua profissão mesmo, senhor Vitarelli?

– Professor, entre várias coisas. Está difícil. – ele conhece meus ofícios, mas é exímio em ralhar.

– Sei.

– Bom, mas estou prestes a concluir um livro e uns artigos para jornais.

– Você escreve?

– Sim.

– Nossa. Professor e escritor. E isso dá dinheiro?

– Não tanto quanto viver de aluguéis, mas há migalhas – eu disse já meio irritado.

– Opa, então vai entrar uns trocos! Isso mesmo, de grão em grão a galinha enche o papo. – disse ele, esfregando as mãos como alguém que encontra a lâmpada mágica.

Sim, a galinha enche o papo, mas é para dar voos rasos, ovos chocos e aguardar ser abatida para o churrasco, eu pensei. Nos olhos do senhor “F” correm cifrões. Eu podia vislumbrar seus prazeres nos rendimentos e toda aquela história que ele vivia contando sobre como sua família era pobre quando chegou e, por meio de muitas conquistas, tornou-se uma das mais imponentes da cidade e, para coroar, resgatou o suposto brasão de honras do sobrenome perdido em terras italianas.

– Então está certo, senhor escritor Henrique Vitarelli. Aguardarei os atrasados, tem dez dias.

– Tudo bem.

– Passar bem.

– Passarei.

Fecho a porta, imagino que o senhor “F” é muito feliz com as suas contas e com o fato de valorizar o suor do trabalho alheio. E sempre com esses ditados bolorentos. Vou até a cozinha pegar um pouco de água e o meu copo oficial de uísque baixa-renda. Imagino os meios pelos quais o senhor “F” forjou suas riquezas. Sei que ele jamais leu Lampedusa, mas deve ter visitado a região num desses cruzeiros cafonas onde vovós e vovôs cheios de botox vão para tomar batidinhas e disfarçar o tédio nos cassinos flutuantes.

Antes de retornar aos meus devaneios de escritor municipal vejo atravessar meu campo de visão a pequena Aglaia Iepanchina, minha gata, uma verdadeira pantufinha de pelos e miados. Ela vai até a caixa de areia, roda, roda e roda, lança dois miados, cisca um buraco e, enfim, dá uma bela cagada.

E é por isso que eu admiro os felinos e os considero muito semelhantes aos seres humanos. Não por motivos de serem as companhias favoritas de escritores, escritoras, poetas e da maior parte das pessoas que compõem a estrangulada e desprezada classe artística e cultural do país. Nem pelo fato de serem animais independentes e, como eu, possuírem personalidade forte, mas sim por eles tentarem sempre, com muita dedicação, esconder as merdas que fazem.

Henrique Vitarelli, onde você encontrará o montante de três aluguéis atrasados? Volto para a escrita, mas já esqueci o romance que planejava. Sou escritor, e um idiota, penso.

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One comment

  1. Adorei, de novo! Kk
    Sr. Henrique Vitarelli crie algo com sensor, para você não esquecer a data de pagamento do seu aluguel. Gostou da minha sugestão? Estou rindo, muito! Professor e escritor é dose dupla de sofrimento; ou será masoquismo? Vou falar sobre ficção na proxima aula. Kk

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